O descanso do pastor

Posted on março 13, 2012

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originalmente publicado em http://iprenascenca.com



Para escândalo dos reformados radicais (também chamados de neopuritanos), os pastores são os primeiros a quebrar o mandamento do “Dia do Senhor”. Mesmo os pastores “neopuritanos”. Nesse dia eles aconselham, trabalham elementos finais (espero!) de seus sermões, às vezes têm reunião com o conselho da igreja, etc. Exercem as atividades que definem o seu trabalho.  


Mas tenho pouco ou nenhum interesse pela opinião radical sobre a atividade do pastor aos domingos. Acredito que já existe um discurso definido por este grupo, para justificar o trabalho pastoral no “Dia do Senhor”. Mencionei “os mais reformados dentre os reformados” apenas por serem eles os que fazem maior barulho sobre este mandamento. 


Também não pretendo me aprofundar na discussão do significado mais pleno do ponto. Essa é uma conversa que vai longe, e o meu objetivo é tocar um dos sentidos envolvidos no mandamento: o do descanso. Por isso passo de uma lógica mais técnica e elaborada, para uma mais simples: se os pastores trabalham duro (normalmente) aos domingos, enquanto este é o dia de descanso da maioria, quando os pastores descansam?


Há quem pense que os pastores trabalham aos domingos, ou mesmo que não trabalhem nunca, e por isso sempre devem estar livres e disponíveis para qualquer chamado ou reivindicação da igreja. Já ouvi pastores falando bobagens do tipo: “eu sou pastor, mas eu trabalho” – numa brincadeira sem sentido e autodestruidora. John Piper nos ajuda a entender um pouco da jornada e do desgaste pastoral: 

A maioria dos nossos irmãos não faz idéia do preço que se paga por duas ou três mensagens semanais em termos de exaustão espiritual e intelectual. Sem contar o esgotamento causado pelos sofrimentos familiares, as decisões da igreja, os dilemas morais e teológicos imponderáveis. Eu, por exemplo, não sou um poço artesiano, Meu cântaro se esvazia mesmo quando dele nada se verte. Meus ânimos não se revigoram na correria. A carência de tempo para a leitura tranquila e reflexão, além da urgência do preparo do sermão, reprime minha alma e, logo, o espectro da morte espiritual se manifesta. Poucas coisas me assustam mais que o início da esterilidade proveniente das responsabilidades desmedidas que mal permitem a nutrição espiritual e a meditação. (Piper, Irmãos, nós não somos profissionais, p. 81-2).

O resultado de um pastor esgotado é trágico.

Este não é um pensamento novo. Grandes nomes da história da igreja que pensaram sobre o ministério pastoral trataram a questão. O pastor batista reformado Charles Spurgeon, considerava esse tempo essencial para resgatar algum tipo de vigor ao ministro, bem como para preservá-lo de sucumbir aos males do esgotamento.

Se um homem for de natureza alegre como um pássaro, dificilmente poderá manter-se assim ano após ano contra esse processo suicida. Fará do seu escritório uma prisão e de seus livros carcereiros de um presídio, enquanto do lado de fora da sua janela a natureza acena-lhe com a vida saudável e chama-o para a alegria. Aquele que esquece o zumbir das abelhas na urze, o arrulho dos pombos selvagens na floresta, o canto dos pássaros no arvoredo, o ondular do regato por entre o junco, e os lamentos do vento entre os pinheiros, não tem por que se espantar caso o seu coração olvide cantar e sua alma fique pesarosa. Passar um dia respirando o ar fresco das montanhas, ou fazer uma excursão de algumas horas na umbrosa tranquilidade das copadas faias, servirá para varrer as teias de aranha das cabeças cheias de vincos dos nossos fatigados ministros que já andam meio mortos. Uma tragada de ar marinho, ou uma firme caminhada contra o vento, não dará graça à alma, que é o que há de melhor, mas dará oxigênio ao corpo, coisa que vem em segundo lugar. (Spurgeon, Lições aos meus alunos 2, p. 239-240).

Mais recentemente o Pr. Conrad Mbewe (já chamado de “O Spurgeon africano”) escreveu sobre o mesmo assunto, enfatizando o elemento do cuidado pessoal do pastor. Para Mbewe, é necessário compreendermos a amplitude desse cuidado pessoal. Isso envolve a vida “espiritual, física, emocional, intelectual e doméstica”. Para demonstrar o ponto, cita um exemplo mencionado pelo pregador Martyn Lloyd-Jones.

Certa vez, um pregador muito conhecido no Reino Unido foi pedir conselhos ao Dr. Martyn Lloyd-Jones. Ele sentiu-se tão seco espiritualmente que estava pensando seriamente em abandonar o ministério pastoral. Sua vida de oração estava no nível mais baixo possível. Ele sequer sentia amor pelas almas e se via como um completo hipócrita por ainda estar no ministério. Quando o Dr. martyn Lloyd-jones ouviu tudo o que este pregador tinha a dizer, aconselhou-o a tirar umas férias. O pregador, lembrando-se deste evento, disse que ficou extremamente desapontado pelo fato do Dr. Lloyd-Jones não lhe dar outro conselho, além de tirar férias.  No entanto, em respeito ao “doutor”, ele acatou a sugestão. Seu testemunho foi que após aquele tempo de férias, não precisou voltar a falar com seu conselheiro. O gozo espiritual havia voltado. Ele estava espiritualmente alegre outra vez. A lição que aprendera foi muito simples – todas as áreas da sua vida estão interligadas. Este homem havia negligenciado o descanso físico e emocional, e isto teve um efeito visível em sua vida espiritual. (Mbewe, Tem cuidado de ti mesmo, em: Amado Timóteo,  p. 35).

O pastor Richard Mayhue destaca outro elemento que brota do ponto em foco: a relação do pastor com sua família. Destacando uma pesquisa realizada em 1992, Mayhue (A família do Pastor, em: Ministério Pastoral, p.163) demonstra que a dificuldade conjugal mais encontrada nas famílias pastorais foi a falta de tempo suficiente em conjunto. Quando o pastor reserva tempo para seu descanso, e a igreja respeita este momento, não apenas ele será livrado de problemas físicos e espirituais, como também poderá investir mais e melhor em sua família – a base de seu ministério (tudo começa no lar).


O pastor segue trabalhando aos domingos, provavelmente mais do que a maioria de suas ovelhas. Deste modo, a pergunta volta: quando os pastores descansam?

Existem igrejas sem nenhuma previsão de um dia de descanso para o seu pastor. Ele trabalha de domingo a domingo, ininterruptamente. Quando aparece esgotado, simplesmente é criticado, ou mesmo substituído por alguém que “demonstre mais gás e compromisso com a obra”. Espero que as igrejas a pensar deste modo sejam poucas. Acredito que a prática mais comum adotada pelas igrejas, é a de separar algum outro dia na semana para o descanso pastoral. Em minha breve experiência, tenho percebido que a Segunda-feira é normalmente este dia. Na segunda, muitos pastores podem acordar mais tarde, passear com sua esposa e filhos (quando a agenda destes permite), assistir um filme, dedicar-se a leituras mais leves, etc. Esta não é uma regra, no entanto. Conforme a agenda da igreja, outro dia pode ser escolhido. O importante é que a igreja reconheça a necessidade de ter um período destacado para o descanso do seu pastor, sob pena de resultados trágicos para a vida dele e da comunidade.

Além deste dia específico, é importante que a igreja considere o período de férias como natural e precioso para o ministro. Conheci pessoas que afirmavam explicitamente que o pastor não deveria ter direito a férias, porque “não se tira férias de igreja”, ou alguma variante desse argumento. Entendo ser isso uma noção errônea e perigosa. Quando compreendemos mais adequadamente uma teologia bíblica do corpo, que tenha fundamento no descanso do sétimo dia (que mudou para o primeiro), ou algo envolvido com o jubieu, a mordomia de nosso corpo e o valor da matéria, além de pensarmos nas questões familiares, não teremos dificuldades com férias pastorais.

Pastores precisam descansar…

Dito isto, é preciso pensar em outras situações.  O descanso do pastor de modo algum pode desconsiderar as urgências de sua vocação. Necessidades extremas devem tirar o ministro de sua folga, e levá-lo ao exercício do pastoreio. Membros que falecem, casais à beira da separação e pessoas em crises graves podem exemplificar bem situações nas quais o descanso é deixado de lado, e pastor volta ao trabalho. Tendo o princípio bem estabelecido, as situações de interrupção da folga serão justas e adequadas, e terão esse caráter de exceção mantidas.

O outro ponto é quando o pastor é workaholic – um tipo de viciado em trabalho. Não é difícil vermos, como o Pr. Conrad Mbewe mencionou, ministros que negligenciam o seu descanso, sempre se envolvendo com algo para resolver. Tais líderes precisam reconhecer o perigo deste estilo de vida, e a igreja pode orar para que seu pastor conheça seus limites e os respeite. Penso sobre isso enquanto eu mesmo, no meu dia de folga (segunda-feira), estou aqui escrevendo um artigo para instruir as ovelhas e falhando em simplesmente descansar. Ainda estou aprendendo.Que Deus nos ajude, e renove as forças de nossos pastores. 

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