Reforma e cosmovisão (1)

Posted on julho 9, 2009

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A idéia comum ao se mencionar a expressão “Reforma Protestante” é de algo simplesmente religioso, voltado para os elementos espirituais, etéreos e, portanto, desconectado da realidade concreta.
Não se nega, em nenhuma instância, a relação deste fato histórico com a religião e religiosidade do século XVI, sem mencionar seus desdobramentos subseqüentes sobre os aspectos teológicos e eclesiásticos.
A pergunta a ser observada, contudo, é se o escopo deste movimento se esgota no âmbito metafísico. Falar em Reforma Protestante significa se restringir a comentários exclusivamente teológicos? Uma observação cautelosa do ponto de vista da lógica, da história e da pesquisa científica revelará que a resposta adequada para a pergunta acima é negativa.
Primeiramente se destaca que esta separação entre os itens religiosos – abstratos, etéreos e distantes da vida comum – e os itens regulares da sociedade é rejeitada pelo pensamento dos reformadores. Kuyper (2002, p. 26) afirma ser o calvinismo um método diferenciado de existência, e não propriamente de religião.

(…) Mas ao lado do Romanismo, e em oposição a ele, surge o Calvinismo, não simplesmente para criar uma forma de Igreja diferente, mas uma forma inteiramente diferente para a vida humana, para suprir a sociedade humana com um método diferente de existência e para povoar o mundo do coração humano com ideais e concepções diferentes.

Leite e Leite (2006, pp. 30), ao observarem o pensamento de Nicholas Wolterstoff, chegam a conclusão semelhante à de Kuyper, destacando o papel social da Reforma Protestante.

Nicholas Wolterstoff descreveu a forma calvinista de religião como tendo caráter formativo, em oposição ao cristianismo medieval, que seria predominantemente avertivo, isto é, voltado para o mundo celestial. O puritanismo era formativo porque nele o interesse religioso se voltava para a realização de tarefas terrenas e para a reforma social. Segundo ele, mais do que o luteranismo, o calvinismo incorporou o caráter formativo da religião bíblica e dirigiu-o contra a igreja e contra o Estado, rejeitando, simultaneamente, a separação luterana entre a fé e a política, a confusão católica entre igreja e Estado, e a negação anabatista da legitimidade do poder temporal. Surgiu assim, no clímax da Reforma, uma forma de cristianismo profundamente intramundana e dedicada à aplicação da Palavra de Deus a todas as áreas da vida.

As implicações deste “envolvimento intramundano” são demonstradas pelos mesmos autores ao mencionarem o caso específico da vocação (LEITE e LEITE, 2006, pp. 33 e 34). Neste sentido, mais do que pensamentos sobre religião, a Reforma pensou o trabalho e sua função na sociedade.

Cada vocação se tornou, assim, uma esfera de serviço e reforma, para a glória de Deus. A dona de casa, o comerciante e o sapateiro tornaram-se, em suas tarefas, ministros de Deus; o engajamento econômico, político, científico e artístico recebeu novo alento, informado por um ardor verdadeiramente religioso. Mais do que isso, o próprio ordenamento social tornou-se objeto de reflexão e ação transformadora, colocando a história em um firme movimento de reforma social, que continua ainda hoje.

Isto demonstra como o pensamento e a práxis dos reformadores estavam distantes da noção fragmentada que acompanha a mentalidade comum sobre a questão.


Obras citadas (na ordem de referência):

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

LEITE, Cláudio Antônio Cardoso e LEITE, Fernando Antônio Cardoso. Evangélicos ou evangélicos? A igreja brasileira entre os exemplos do passado e o dilema do presente. In: CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de; et. al. Cosmovisão Cristã e Transformação Social. Viçosa: Ultimato, 2006.

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