Fundamentalista ou reformado? J. Gresham Machen e sua resposta ao liberalismo teológico clássico [6]

Posted on junho 11, 2010

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6 UMA AVALIAÇÃO REFORMADA DA OBRA “CRISTIANISMO E LIBERALISMO”

Machen trabalha a partir dos pressupostos reformados – a sua obra ‘Cristianismo e Liberalismo’ demonstra não apenas uma resposta conservadora à perspectiva modernista de teologia (o liberalismo), mas uma resposta reformada. Assim, serão percebidas no texto de Machen as nuances calvinistas, seja de modo direto, seja de maneira tácita – nas entrelinhas.

Ele apresenta a sua proposta na seção introdutória do livro.

O propósito […] não é decidir a questão religiosa dos dias de hoje, mas meramente apresentá-la da forma mais precisa e clara possível, a fim de que o leitor possa ser auxiliado a decidir por si mesmo1.

Machen critica diretamente o gosto pela obscuridade característico das discussões religiosas do seu tempo. Ele reivindica clareza, para que se saiba exatamente com o que se está lidando. Esta crítica é baseada em fatos como o uso liberal de termos tradicionais, porém, com significado distinto. A confusão e falta de clareza no discurso poderia comprometer severamente a vida da igreja.

[…] a grande religião redentora, que sempre foi conhecida como Cristianismo, está lutando contra um tipo totalmente diverso de crença religiosa que é simplesmente a forma de pensar mais destrutiva da fé cristã – porque faz uso da terminologia cristã tradicional2.

O que segue na introdução é uma análise da cosmovisão subjacente à época. Machen observa com cuidado o naturalismo e suas implicações para a educação – a formação intelectual como um todo -, a política, e a igreja. O impacto desta perspectiva é considerado destrutivo para ele.

Ao tratar da doutrina, Machen aponta para a realidade de que o liberalismo da época não era algo restrito à academia, mas uma perspectiva já presente em “’lições’ de Escola dominical, [no] púlpito, e [na] imprensa religiosa”3. Ele critica o desprezo pela doutrina, manifestado entre os que desconsideravam o perigo do liberalismo, afirmando que se tratava apenas de uma leitura moderna do cristianismo, e que os ensinamentos em si não são importantes.

O ponto de Machen é que, primeiramente, esta objeção não se refere à doutrina como um todo, mas a um tipo específico de doutrina, a saber, o conservadorismo – considerando que se está abandonando um ensinamento para se adotar outro.

Após esta observação, ele se detém a analisar o ceticismo de modo mais amplo – a noção de que toda doutrina deve ser desprezada. Nesta análise ele observa afirmações como a de que “o cristianismo é vida e não doutrina”. Contra-argumenta, indicando a realidade de que o cristianismo, desde o seu início estava baseado em uma mensagem, algo que articulava o modo de vida.

Ele defende a historicidade de eventos como a ressurreição de Jesus, bem como analisa aspectos questionados por liberais, como a consciência messiânica de Jesus. Através destas observações e refutações, ele pretende demonstrar que Jesus, os apóstolos, a igreja primitiva, etc., são exemplos de “vida cristã”, mas estão baseados em um fundamento teológico-doutrinário essencial.

Tendo apresentado um panorama do assunto e estabelecido a importância da doutrina para o cristianismo, Machen passa a analisar aspectos da teologia. Ele inicia o seu registro com Deus e o homem. Para Machen, é importante começar deste ponto – “a doutrina de Deus e a doutrina do homem são dois grandes pressupostos do evangelho”4.

Seguindo a linha de que o liberalismo é uma forma de religião totalmente diversa do cristianismo, Machen afirma que “com relação a esses pressupostos [doutrina de Deus e do homem], assim como com relação ao próprio evangelho, o liberalismo moderno é diametralmente oposto ao cristianismo”5.

Onde estão as diferenças? Ele demonstra: Quanto a Deus, a concepção liberal de “sentir” Deus mais do que conhecê-lo é oposta ao cristianismo6; o liberalismo não faz adequadamente a distinção entre Criador e criação7. No que diz respeito ao homem, o liberalismo parte da identificação que fez entre Criador e criatura8; esta perspectiva ainda nega a realidade do pecado9.

Ao falar da Bíblia, o apologeta em questão apresenta o problema do liberalismo e sua ênfase excessiva da experiência sobre a Escritura10. Além disso, Machen afirma a singularidade11 do conteúdo Bíblico, bem como reafirma a confissão ortodoxa cristã sobre a inspiração12, inerrância13 e autoridade da Escritura14.

“Em sua atitude para com Jesus, o liberalismo e o cristianismo são agudamente opostos”, afirma Machen15. A Cristologia liberal diverge da reformada em aspectos básicos como a divindade de Jesus (esta defende e aquela não). Segundo o apologeta, “os cristãos têm um relacionamento religioso com Jesus; os liberais não têm um relacionamento religioso com Jesus16”, ou, mais adiante: “Se Jesus foi apenas o que os historiadores liberais supõem, então confiar Nele não faria sentido, nossa atitude com relação a Ele seria de pupilos para com o Mestre e nada mais”17.

Sobre a salvação, Machen sintetiza sua crítica na máxima: “o liberalismo encontra a salvação (até onde deseja falar de ‘salvação’) no homem; o cristianismo a encontra em um ato de Deus”18. Ele critica com força o esvaziamento promovido pelo liberalismo no âmbito soteriológico.

O último capítulo da obra de Machen trata da doutrina da Igreja. Por seu caráter amplo e, muitas vezes vazio de significado preciso, o liberalismo também diverge do cristianismo nesse ponto. Não há uma clareza sobre os salvos e suas nuances – pelo contrário, como demonstrado acima, os liberais tinham fortes tendências universalistas. Sendo assim, a distinção entre salvos e perdidos deixa de existir, bem como a necessidade de um povo “escolhido por Deus”. Desta maneira a igreja é perdida. Ela deixa de ser necessária, e, se ainda faz parte da experiência cristã, é mais por conveniência e tradição que por necessidade. Para Machen e os reformados, por outro lado, “a Igreja é a resposta cristã mais elevada às necessidades sociais das pessoas”19.

Deste modo, Machen tece suas críticas ao liberalismo em conformidade com as posturas reformadas de modo geral. Seus pressupostos são ortodoxos e calvinistas. Pela dinâmica da obra, Machen pode ser encarado como um modelo apologético, uma voz reformada que se engajou na luta pela verdade, por amor a Deus e à Igreja.

Posted in: a Caneta, o Jornal