Dragonball evolution (2009)

Posted on julho 13, 2010

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Estou forçadamente de repouso no sofá. Uma extração de dois sisos determinou o tom da minha semana. Mas isso não é de todo ruim. Além do sumiço das dores no lado direito da boca, algumas expressões culturais podem ser percebidas sem pressa.

É que acaba de acontecer com o filme Dragonball evolution, filme de 2009, dirigido por James Wong (Arquivo-X), e escrito por Ben Ramsey (adaptação para o cinema) e Akira Toryiama (história original). Atores como Justin Chatwin, James Masters, Emmy Rossum, Joon Park e Yun-Fat Chow fazem parte do elenco.

Confesso que anteriormente apenas havia assistido uma cena ou outra do desenho animado, por isso não tenho a mínima pretensão de fazer uma análise exaustiva da obra, mas apenas sugerir alguns insights a serem “captados”, se a minha linha de percepção estiver correta. Deixo que os maiores conhecedores do desenho e do filme avaliem.

A história caminha mais ou menos assim: Goku (Justin Chatwin) perde o avô no dia do seu aniversário de 18 anos, e é alertado sobre o poderoso Piccolo (James Masters), que conseguiu se livrar do encantamento que o prendeu por séculos. Piccolo está em busca das esferas do dragão, para que, ao reuni-las novamente, consiga todo o poder e consiga dominar o mundo com o seu discípulo, Oozaru.

Para evitar o domínio de Piccolo, Goku deve encontrar o Mestre Roshi (Yun-Fat Chow), o que faz com a ajuda de Bulma (Emmy Rossum). A partir daí ele passa a entender melhor o plano de Piccolo, e vai em busca das sete esferas do dragão, para combater Piccolo.

1. A dualidade bem-mal no ser humano

O que Goku não sabe – e será revelado apenas no momento da luta final com Piccolo – é que ele mesmo é Oozaru. Em si, carrega duas “forças opostas” – o bem (Goku) e o mal (Oozaru). Em algum momento da batalha fica claro o conflito entre ambas personalidades para terem maior evidência na conduta de Goku.

Este não é um tema novo. De fato, a literatura já trabalhou o assunto. O clássico “o médico e o monstro”, com a noção de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – uma personalidade boa e outra malvada – encontrando lugar na mesma pessoa demonstra bem o ponto. Os desenhos animados também já seguiram esse caminho: quem não lembra dos episódios de pica-pau ou do pernalonga, no qual eles precisavam lidar com um cientista pacato, mas que à noite se transformava em um monstro maligno?

Além disso, a Escritura tratou a questão. A descrição de homem interior e homem exterior, carne militando contra espírito, nos lembram um pouco das estórias acima contadas. Lutero afirmou que era “simul justus et peccatore” – ao mesmo tempo pecador, e justo. Em outras palavras, há alguma dualidade em todo cristão – uma no qual o seu homem exterior, corrompido e ainda não completamente restaurado (a sua carne), milita contra o homem interior, renovado à imagem de Jesus.

Acredito que um cristão não teria dificuldade em perceber neste item um ponto de contato entre a história de Goku e a fé cristã. A diferença, porém, está no modo de lidar com essa dualidade.

Os cristãos trabalham na perspectiva da antítese. Conforme o cristianismo, o “lado bom” – o homem interior – deve prevalecer sobre o lado mau – o homem exterior. Não há meio termo, a vida de santidade deve ter primazia diante da vida em pecado. A glória de Deus é o que importa, e Deus é glorificado na obediência dos Seus filhos.

Para Goku e seus mestres, porém, a perspectiva adotada não é a da antítese. Seguindo de perto a religiosidade oriental, a estória busca o equilíbrio das forças. Se não uma síntese, pelo menos a coexistência “pacífica” entre ambas é demonstrada. Goku subjuga Oozura, é certo, mas isso não se dá numa busca de destrui-lo, mas de viver no equilíbrio entre bem e mal, a fim de ter o maior poder (vindo de ambos os lados) para derrotar Piccolo.

Não por acaso, o Yin Yang trabalha uma idéia semelhante. Bem e mal coexistindo – um pouco de mal no bem, um pouco de bem no mal – para o equilíbrio da natureza.

A diferença de propostas avança para a diferença de conclusão. No cristianismo, o fim se dá com a vitória gloriosa do Senhor Jesus – o Supremo bem sai vitorioso. A visão cíclica de história das religiões orientais não propõe a solução do conflito, mas apenas algum tipo de vitória temporal e expectativa da próxima batalha (Piccolo não é destruído, e Goku continua a buscar as esferas do dragão).

2. A identidade e a vida prática

Desde a infância, em seu treinamento, Goku ouve do seu avô a instrução para acreditar em quem ele é – isto definiria a sua vida, bem como o uso de sua força.

O conflito de identidade é demonstrado desde o início do filme, e passa a ser tecido por vários momentos distintos. Goku vive em conflito por ser um lutador, mas não poder lutar na escola. Partilha do conflito adolescente de não saber exatamente qual o seu lugar no mundo. Mais ainda: por não ter conhecido os pais, sofre sem ter uma definição clara de suas origens.

O conflito “evolui” para outro estágio: Goku descobre que é Oozaru, e precisa lidar com essa dificuldade de identificação pessoal para vencer Piccoli. Quem ele é? Goku, ou Oozaru? Em uma cena peculiar do filme, Oozaru segura o Mestre Rochi pelo pescoço, enquanto o escuta falar sobre a identidade de Goku. Tal qual um Hulk em busca de equilíbrio, ele deixa a aparência de Oozaru (um tipo de gorila) e volta a ser Goku – agora com o equilíbrio das forças entre ambos.

O filme está trabalhando a noção de que a sua identidade é fundamental para a sua práxis. Enquanto Goku não lida adequadamente com suas questões definidoras, não pode alcançar e aplicar a sua força adequadamente.

Os cristãos também precisam saber quem são, de onde vêm e para onde vão, a fim de experimentarem a força do ministério.

3. Morte e ressurreição

O drama da redenção novamente é representado em termos de morte e ressurreição. O mestre Rochi morre para que Goku consiga lutar com Piccolo – ele tenta um novo encantamento, do tipo que prendeu o monstro anteriormente, e também padece enquanto lembra Oozaru de sua identidade.

Ao final, Goku consegue a ressurreição do mestre, pelo poder das esferas do dragão.

Não é interessante que morte, ressurreição e redenção estejam relacionados não apenas no filme, mas na Escritura também?

4. Criação, queda e redenção

O filme reflete a mentalidade cíclica das religiões orientais, então percebe a realidade em termos de uma constante dialética : criação-queda-redenção. Havia paz no mundo (criação), quando Piccolo tentou dominá-lo (queda), e finalmente foi preso (redenção / recriação). Após séculos de paz (criação), Piccolo volta novamente para tentar a dominação (queda), e Goku vence a batalha (redenção / recriação). O ciclo continua por período indeterminado – parece que o filme terá sua continuação, mas não sei como pretendem terminá-lo, nem faço idéia de como o desenho teve seus episódios finais.

A visão cristã da história vê criação, queda e redenção, em última análise, como etapas da grande história da redenção promovida por Deus. Houve um dia em que tudo foi criado. Uma queda histórica aconteceu, e tem demonstrado seus efeitos neste mundo caído. Há, na vida dos cristãos, uma redenção salvífica que se apresenta em termos de “já/ainda não” – a redenção já teve início, mas ainda não foi concluída. Chegará o dia da completa restauração de tudo, eternamente, para a glória de Deus.

Que tal discutir algumas dessas noções do filme com seus parceiros cinéfilos?
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Posted in: a Caneta, o Jornal