A carteirada pastoral

Posted on setembro 16, 2010

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Uma coisa ruim de ser pastor é que você pode estar no auge do seu ministério, mas ainda tem que lavar a louça.

O pastor tem uma série de privilégios – pelo menos em alguns cantos. Ministro visitante em uma igreja, por exemplo, nunca faz trabalho pesado (além de pregar). Pelo contrário, se você tiver um alto nível de reconhecimento popular, vai ser recebido pela igreja que o convidou para pregar, e, nos intervalos, fazer passeios, jantar na casa de irmãos da igreja ou em restaurantes da cidade.
Obviamente eu não estou nesse nível. Mas é possível desfrutar de algumas benesses em proporções menores.

Uma vez fui preletor em um acampamento no qual o povo não me deixou pegar fila para as refeições de jeito nenhum. Eu até tentei ficar em uma, mas lá estava um “vigia dos bons modos”, que deu a carteirada nos irmãos por mim. “Pastor não pega fila”, e “esse pessoal precisa aprender a respeitar a autoridade pastoral”, dizia. Não creio que estar em um lugar à frente na fila para o almoço seja evidência de insubmissão, mas respeitei o desejo de me tratar bem, revelado pelo rapaz.

Há casos em que você nem mesmo espera uma refeição, nem pensa em ir para a fila, ou algo semelhante – como aqueles lanches vendidos na “cantina” da igreja após o culto – e o lanche simplesmente aparece. Uma irmãzinha piedosa veio demonstrar carinho servindo-o surpreendentemente.

Para quem já estruturou bem uma igreja, há o privilégio do pastor evitar maiores trabalhos braçais – não por ser frouxo ou algo do tipo –, mas pelo reconhecimento de que não é bom que ele deixe a oração e a Palavra para se dedicar a outras coisas. Refiro-me a isso como um privilégio, sabendo da dificuldade que é se dedicar à oração pelos irmãos, e à preparação de um bom sermão.

O meu ponto é que ser pastor produz uma série de coisas boas. As ruins existem, certamente, e podem ocupar muitos outros posts, mas quero enfatizar os privilégios mencionados acima. Normalmente nem é você que precisa dar a “carteirada pastoral”, muitos fazem isso no seu lugar.

Contudo – e sempre há um “contudo -, quando você chega em casa os privilégios cessam. Especialmente se você é pastor, ainda não é casado, e mora sozinho, há o demônio da louça suja a ser exorcizado.

Você pode gritar o quanto quiser que é pastor. Pode citar Atos 6 nas mais variadas versões, inclusive no original [grego], aplicando ao contexto: “não é bom que deixemos a oração e a Palavra para lavar a louça”, mas nada acontecerá. Nadinha mesmo.

A louça é uma ovelha rebelde e obstinada. Ela não se importa com o número de anos que você passou no seminário, ou com as visitações e estudos que você ainda precisa fazer. Ela está lá, inerte, sorrindo faceiramente do seu incômodo ao encontrá-la. E se você demorar mais que o normal para encará-la, ela joga na sua cara que você está cometendo o pecado da procrastinação.

Nenhuma carteirada funciona com a louça. Todo pastor precisa colocar a mão na massa para a conversão de um prato sujo em um limpo. E assim ela – a louça – nos ensina que, melhor que ficar reclamando, é usar o tempo diante da pia para as orações.

Alguém aí se habilita a criar o ministério “diante da pia”?

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Posted in: a Caneta