O resgate da Igreja [Por ocasião dos 493 anos da Reforma Protestante]

Posted on outubro 30, 2010

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Editorial publicado no informativo da Igreja Batista Renascença

Num domingo de eleições e halloween, possivelmente poucos lembrarão que há 493 anos um monge agostiniano faria um gesto marcado como o início da Reforma Protestante. Muitos conhecem a história: enquanto lutava com mil questões internas, e estudava as Escrituras, percebendo apenas um Deus irado, Lutero teve os olhos abertos para uma justiça que não nascia dele mesmo, mas lhe era dada por Jesus.

Seu estudo da Palavra de Deus o levou a questionar o sistema doutrinário que lhe foi ensinado desde a infância, atingindo níveis de discordância cada vez mais intensos. Seu objetivo não era o rompimento da igreja, mas sua purificação. A reação do papado não foi tão positiva. Lutero foi excomungado e, se não tivesse apoio popular e de alguns príncipes germanos, provavelmente não teria sobrevivido a esta luta. Aproximadamente cem anos antes de seu ato histórico – pregando as 95 teses na porta da catedral de Wittenberg [um tipo de outdoor ou mural de informações da época] – outro pregador, John Huss, foi morto na Boêmia por ensinar doutrinas semelhantes às de Lutero.

Lutero não questionou apenas as doutrinas, mas o modo de pensar e agir da igreja de então. Ele não estava sozinho. Enquanto ele promovia suas reformas na Alemanha, Ulrico Zuínglio fazia reformas semelhantes na Suíça. Em seguida, homens como João Calvino, John Knox, Guilherme Farel e Teodoro de Beza seguiram liderando o movimento, promovendo a Reforma e a solidificação da Igreja que tomava forma.

O fenômeno cresceu, gerando a igreja protestante, que de sua origem deu forma aos evangélicos, pentecostais, reformados, luteranos, neopentecostais, entre tantos outros grupos que se abrigam sob o guarda-chuva da Reforma Protestante.

Qual a relevância de tudo isso para a Igreja hoje? Existem vários fatores. Consideremos alguns:

A Palavra de Deus, mais que qualquer tradição, deve nortear a nossa forma de pensar, crer, e agir. Lutero rompeu com aspectos muito fortes de sua criação, tradição e contexto cultural. Somos desafiados a repensar a nossa forma de ser, a partir da Escritura, abandonando aquilo que não se conforma com a vontade de Deus – ainda que nos tenha sido ensinado por toda a vida. Um coração examinado e sondado pela Bíblia é um desafio da Reforma para mim e para você.

Seguir a Jesus implica tomar a cruz. Provavelmente nenhum destes reformadores teve paz contínua em sua vida. Precisaram lidar com oposição, pressões, perseguição, entre tantas outras dificuldades. Por amor a Deus, estavam dispostos a abdicar de honra pessoal, prestígio na sociedade, e conforto. Eles foram instrumentos de Deus para que estivéssemos em uma condição melhor hoje, mas cabe a mim e a você avaliar: tenho buscado mais o conforto do que a obediência a Jesus? Minha reputação ocupa mais o meu pensamento do que a glória de Deus? Abrir mão de honrarias e privilégios em nome da obediência ao Pai é desafio dos reformadores para nós.

Investir na formação de liderança nunca é demais. Lutero se dedicou a dar aulas de teologia, traduzir a Bíblia para o idioma popular, e estudar o catecismo com seus discípulos, formando pessoas como Filipe Melanchton, o seu sucessor na Alemanha. Calvino fundou a Academia de Genebra, lugar onde se formaram os primeiros missionários a aparecem no Brasil (os franceses que aqui estiveram em 1556 e foram mortos na emboscada de Villegaignon), e onde outros sucessores foram formados, como John Knox (que fez o trabalho da Reforma na Escócia). A Reforma teve continuidade, entre outras coisas, porque líderes foram formados e seguiram como instrumentos na edificação do povo de Deus. Assim, somos desafiados a investir em nosso crescimento, bem como investir naqueles que já têm sido moldados para a liderança. O desafio de formar cristãos convictos e ousados para a glória de Deus é proposta da Reforma para a Igreja contemporânea.

Sigamos conscientes de nossa identidade histórica, carregando no coração os lemas de nossos irmãos do século 16: Somente pela Graça; Somente pela Fé; Somente por Jesus; Somente as Escrituras; e Somente para a glória de Deus!

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Posted in: a Caneta, o Jornal