Apologética com feijoada dá nisso…

Posted on maio 24, 2011

2


Quem não pode com feijoada, come a nossa papinha“. Assim o site apologético Genizah ironiza o que poderia ser o novo mote da revista Ultimato, segundo ele.

A causa da ironia é a iniciativa por parte da direção da revista em descontinuar a coluna de Ricardo Gondim. “Descontinuar” é o termo politicamente correto para expurgar, expulsar, etc. Pode soar melhor, mas na prática é a mesma coisa.

Danilo Fernandes, autor do post, escreve uma crítica a Ultimato, reafirmando que é fã dela. Eu preciso ir no caminho inverso: não sou fã da revista, mas preciso elogiá-la. E assim, preciso criticar Danilo e o Genizah.

A questão que permeia o texto “apologético” é: Ultimato falhou em ter demitido Gondim. O pastor da Igreja Betesda é, nos dizeres de Danilo, alguém de “inteligência superior”. Possivelmente a superioridade da inteligência gondiniana era o que fascinava o Danilo, que agora se entristece pelo caminho que a revista toma.

Pensando sobre as causas da expulsão, ele levanta:
1. A coisa se deu por medo de exposição
2. A motivação – sugere – é comercial
3. Trata-se de acompanhar o pensamento da maioria dos evangélicos, que não consegue conviver com opiniões diferentes.

Por fim, aparece a figura da feijoada. Danilo é o cabra macho, que gosta de comer toucinho, “sem frescuras e alarde”. E a comida promovida pela Ultimato com Gondim era feijoada – alimento “sólido, diversificado e nutritivo”.

E assim você tem um pouco da cabeça deste estômago privilegiado, que é Danilo Fernandes.

• • •

O método apologético do Genizah: ovos e tomates

O que se requer de um apologeta é, desde o início, discernimento. A capacidade de distinguir as coisas, trabalhar conceitos e práticas dentro de seu contexto, e avaliá-las em um senso adequado de proporções, é o mínimo da atividade de um defensor da fé. Nem se exige que seja um conhecedor dos grandes sistemas apologéticos, tal qual a apologética cultural de Francis Schaeffer, o método indireto de Cornelius Van Til, incursões em pressuposicionalismo e evidencialismo, etc., etc., nada disso! (embora seja ótimo conhecer essas coisas, e quanto mais o apologeta souber desses assuntos, tanto melhor estará munido de recursos para fazer seus movimentos). Mas, pensando em termos bíblicos, o apologeta precisa apenas saber distinguir alhos de bugalhos.

E isso é exatamente o que o Genizah não traz neste post. [Façamos justiça: em outros posts, sobre outros assuntos, há discernimento].

O autor, mascarando o conteúdo naquele formato despojado, cheio de francês, inglês e linguagem informal, quer nos empurrar goela abaixo alguns pontos no mínimo problemáticos, para dizer o mais leve:

1. A inteligência de um sujeito deve nos fazer ouvi-lo
2. O ensinamento de que Deus não tem o controle de todas as coisas (bem como todo o pacote Gondiniano) é alimento sólido para o cristão
3. Ser um cristão maduro, light, cool, etc., é estar aberto para repensar a sua fé a partir daquilo que a Bíblia condena

Está pronto o banquete – quem se propõe a fazer apologia da verdade, serve como agente duplo, e cria confusão na mente dos cristãos.

Inteligência não é, e nunca foi o requisito final para se ouvir alguém, ou ter alguém publicando em revistas cristãs. O camarada pode ter ótima articulação, escrever bem, ler literatura, ouvir música clássica, e falar asneiras teológicas. Por quê? Porque quando falamos de teologia, estamos diante da Revelação de Deus, e não da inteligência humana. Não são os meus processos de raciocínio que me elevam às alturas para compreender o inefável – é o Altíssimo que desce, em sua graça, e se revela a mim através da Escritura. É por isso que “o princípio da sabedoria é o temor do Senhor” (Pv.1.7). A coisa não é medida por minhas capacidades, mas por minha submissão à Palavra.

O alimento sólido não é medido em termos da dificuldade em compreender, da polêmica que gera, ou coisa parecida. Nutrição real vem do ensino da Bíblia – a sã doutrina. Simples, né? Sem muita pirotecnia intelectual. Sem muita afetação. O simples ensino da Palavra de Deus. E mais: o cerne do alimento sólido é o tão básico evangelho! Um Deus eterno, Triúno e soberano, que, em aliança, decide redimir pecadores. O Filho, então, vem ao mundo, nasce de uma virgem, torna-se carne, vive uma vida perfeita em nosso lugar, morre em nosso lugar, recebendo os nossos pecados e a ira do Pai sobre si, e colocando sobre nós a sua justiça. O Filho ressuscita, e sobe aos céus, de onde intercede ao Pai pelo Seu povo. Nada é mais sólido do que a doutrina mais básica da Escritura. Solidez, para Danilo, é sofisticação de palavras – Paulo rejeitou isso em 1Co.1.

Danilo repensa o seu cristianismo/calvinismo a partir dos textos de Gondim. Isso é ser um cristão aberto ao diálogo, que “pensa fora da caixa” (clichê!). E eu fico a me perguntar de onde ele tirou isso. Na Bíblia, o ensino errado sobre Deus e o evangelho sempre foi denunciado e rejeitado como pernicioso. Nunca foi elemento  hermenêutico para revisarmos e reinterpretarmos as nossas convicções, exatamente por partir de pressupostos completamente diferentes, e caminhar segundo padrões opostos à ortodoxia. Danilo avalia a sua fé a partir de quem a nega. E é assim que você chega a um nível de confusão mental como a que ele apresenta.

Ultimato está correta. Se uma publicação se pretende cristã, que publique o cristianismo. Se se pretende evangélica, que publique textos submetidos ao evangelho. Se se pretende temente a Deus, que traga reflexões de quem crê em Deus como Ele se apresenta na Bíblia.

Exageros na feijoada sempre resultam em dor de barriga e visitas periódicas ao banheiro. Esse foi o resultado da feijoada do Genizah.

• • •

Leia aqui o texto do Genizah
Para conhecer o pensamento de Ricardo Gondim: clique aqui, aqui, aqui e aqui.

Enquanto escrevia esta resposta, Carta CaPTal lançou outra entrevista com o Gondim – o velho argumento da inquisição… aqui.

Marcado:
Posted in: a Bíblia