A obtusidade evangélica

Posted on maio 26, 2011

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publicado originalmente no 5calvinistas

with Kuyper I believe that unless we press the crown rights of our King in every realm we shall not long retain them in any realm. Cornelius Van Til

com Kuyper eu acredito que a menos que imprimamos os direitos de coroa do nosso Rei em cada esfera, não mais manteremos tais direitos em qualquer esfera. CVT

    Os acontecimentos recentes envolvendo rumos jurídicos, políticos e educacionais do Brasil – aprovação da união estável de homossexuais, discussões sobre o PLC 122/06 e a elaboração de um kit exaltando o homossexualismo a ser entregue para crianças na escola – provaram um ponto: os evangélicos são mestres em “entregar o ouro ao bandido”. Por “evangélicos” aqui, pretendo ser o mais abrangente possível: reformados, pentecostais clássicos, neopentecostais, tradicionais… o raio! Em uma expressão de ecumenismo poucas vezes manifestada na história brasileira, os evangélicos dão as mãos para manifestar sua obtusidade.
    Obviamente, há quem faça a diferença aqui e ali. Pela graça de Deus, algumas dessas manifestações até produzem resultados benéficos, como a recente vitória quanto à distribuição dos kits pró-homossexualismo para crianças. Provavelmente a vitória neste último item é estritamente a proibição da entrega de tais kits, pois a abordagem da bancada evangélica e os compromissos assumidos não honram o cristianismo.

Os crentes: reivindicam o Brasil para Jesus em marchas,
enquanto entregam o país a satanás no dia a dia

    Avaliando o cenário geral, creio que estamos colhendo o que plantamos, para usar a linguagem de Gl.6. Não cultivamos, em nosso país, a cultura de uma presença evangélica marcante no espaço público. Sempre caminhamos à margem da sociedade, em um discurso paralelo, ora de pessimismo, ora de triunfalismo. Levamos a declaração “o meu reino não é deste mundo” (Jo.18.36) ao extremo de desvincular absolutamente a obra de Jesus da realidade extra-eclesiástica. E assim seguimos apresentando na igreja assuntos desconectados da vida comum do povo – os assuntos “espirituais”. Cheios de boa intenção, irmãos piedosos ficaram exclusivamente com a oração e evangelismo, entregando suas vidas a Deus, enquanto entregavam a satanás as demais esferas da sociedade, como a família, o Estado, a ciência e universidade, e as artes. A tragédia é que nem o evangelismo fizemos adequadamente, porque logo desviamos o foco do evangelho para o moralismo. Pagamos o preço por uma omissão cultural tão grande, que agora os ímpios pretendem nos dizer o que é a arte cristã – cf. a presença da Sony no mercado gospel, e a entrevista de Latino afirmando que pretende entrar no ramo – sem se converter, lógico.
    Temos pecado. Ao entregar as esferas da vida a satanás – não digo intencionalmente, é apenas o que aconteceu em termos práticos – cavamos a cova na qual seríamos enterrados, criamos um cerco ao nosso redor, do qual precisamos nos livrar, mas não sabemos como. O que nos resta, agora, é retuitar mensagens de reclamação, postar alguma coisa em tom inconformado no facebook, e, talvez, fazer um abaixo assinado aqui ou ali – com pouca, ou nenhuma articulação consistente. Enquanto isso, o lobby gayzista ganha uma batalha após a outra, as estruturas de poder caminham para a iniquidade sem pensar duas vezes, a sociedade se acostuma com noções cada vez mais anticristãs, e a bancada evangélica no congresso mantém apenas o nome, sem pensar o Estado a partir da Bíblia e do evangelho.
    O que causou e tem causado tal omissão? Por que deixamos de imprimir a marca dos direitos reais de Jesus sobre o todo da vida? Que forças nos têm levado à obtusidade? Penso que, em uma rápida listagem, pelo menos cinco itens precisam ser considerados.

1 A fraqueza bíblico-teológica da igreja
    A nascente da irrelevância evangélica – embora o termo “relevância” seja muito querido em nossos arraiais – está em nosso modo de lidar com a Bíblia. Conquanto o discurso fale bem da Palavra de Deus, a prática revela desconhecimento e descaso para com o Livro Sagrado. Os pentecostais e neopentecostais diminuíram a autoridade da Escritura diante das experiências, e os reformados e tradicionais reduziram tal autoridade em face das tradições. A Bíblia passou a ser vista pelo povo evangélico como um livro de receitas, um manual pragmático para lidar com situações pontuais, normalmente relacionadas ao contexto específico da igreja, ou ao que chamamos de “vida espiritual”.
    Os resultados desta aproximação da Escritura são estudos fracos do texto, exegese pobre (quando há), hermenêuticas diversas sem objetivos fiéis, e o despreparo de várias gerações diante do todo da vida. Sabemos encontrar o livro e o versículo, mas não sabemos fazer a correlação entre o conteúdo bíblico e a integralidade de nossa experiência presente. A Bíblia nem mesmo continuou sendo percebida como a história da redenção promovida pelo Pai, por meio de Jesus, no poder do Espírito – as reuniões de pequenos grupos e estudos bíblicos hoje lêem o texto e perguntam: “o que isso significa para você?”, desprezando a interpretação em termos do contexto redentivo.
    A reflexão teológica foi deixada em segundo plano, como obra de pessoas frias e sem o Espírito, e com isso entregamos a nossa alfabetização teológica a seres despreparados (talvez com boa retórica, apenas). É fácil notar: muitas igrejas não possuem uma teologia do culto definida – e assim adotam o que aparecer como algo inovador ou “relevante” – , não possuem uma teologia da adoração definida – e assim transitam entre esquemas opostos de oração, cânticos, leitura e vida cristã -, não sabem o que é uma teologia da cultura – relacionando-se com o mundo e a vida na base de critérios moralistas, e por aí vai. Pergunte para o membro comum de sua igreja se ele sabe definir essas questões de acordo com o ensino ali apresentado – talvez tal ensino nem exista.
    Sem estrutura bíblica e teológica, o povo evangélico vive à deriva, incapaz de articular qualquer coisa além de alguns “passos para a vitória” , ou algumas “leis espirituais”.

O símbolo da espiritualidade evangélica
é sintomático: olhos fechados

2 A presença de dicotomias/dualismos na compreensão cristã
    Caminhando a partir da base mal formada do pensamento evangélico nacional, seguimos para o edifício mal construído. O seu primeiro andar traz uma visão fragmentada da realidade: ela está dividida entre o espiritual e o natural, o sagrado e o secular, e o público e o privado.
    Tais dualismos promovem uma interação conflituosa com a cultura (e o todo da vida). Valorizamos os momentos e as práticas relacionadas à igreja: evangelismo, oração… isso é espiritual. E desprezamos o estudo, a reflexão, o voto, o lazer, as artes, a natureza do Estado, etc… isso é natural, e portanto está fora do reino cristão. Como a maior parte da vida – para as pessoas normais – é vivida fora do âmbito da igreja, na cultura, ficamos desarmados em “território inimigo” – entregamos o universo à natureza, e vivemos no mundo dela, como se houvesse um espaço neutro, isento de influência “espiritual”, no qual as pessoas vivem, e com as quais nos relacionamos na mesma base “natural”.
    Dividimos a realidade entre o sagrado e o profano. Nesta base, apenas nos interessamos pelas atividades e objetos sagrados, como a música gospel (?), as publicações evangélicas e tutti quanti. Deixamos de lado as coisas e ações que não trazem o nome “evangélico” ou algo do tipo, ora opondo-nos ao que não é cristão, ora simplesmente ignorando o que acontece à nossa volta. É assim que os crentes se tornam ilhados e alienados. Enquanto os pais cristãos apenas ficam preocupados com o novo cd de músicas gospel infantis, os seus filhos estão sendo alimentados na escola com o que há de mais elaborado para a sua secularização e destruição de quaisquer resquícios judaico-cristãos presentes em sua forma de observar o mundo e a vida.
    Contribuindo para esta degradação, há a dicotomia do público e privado. O povo da música gospel, e da arte gospel, e dos chaveiros gospel, e dos adesivos de peixinho no carro, assimilou muito bem a cultura relativista (já que não estava preparado para discerni-la e combatê-la), e criou guetos específicos de influência religiosa. Existem os espaços privados – separados para a influência da fé, e os espaços públicos, nos quais a minha fé não deve ter lugar. É assim que muitos cristãos ficam calados diante das decisões do STF em prol do homossexualismo, pois “no espaço público e democrático (eles adoram essa palavra) as questões religiosas não têm lugar”. Será? Confinamos a fé cristã ao patamar da subjetividade, retirando-a do único lugar onde ela poderia ser relevante. Em outras palavras, não apenas nos desarmamos, como demos a arma aos inimigos da fé, para nos massacrar como quiserem.

3 A ausência de uma forma cristã de pensar o mundo e a vida
    Além da visão dicotômica das coisas, e talvez como resultado dela, os evangélicos não possuem um modo distintamente cristão de pensar a realidade. Nosso aporte teórico para as ciências está fundamentado na autonomia da razão humana, e assim, quando um cristão tenta romper a barreira da dicotomia e se manifestar como cristão nas ciências, ele pensa a partir dos pressupostos anticristãos.
    A fundamentação para a prática política e jurídica em nosso país é aquela de um Estado formado a partir do consenso. Mesmo os cristãos que desejam se manifestar enquanto tais nesse âmbito, acabam trabalhando a partir do pressuposto de que “o poder emana do povo”, sem considerar a autoridade de Deus.
    Os cristãos que desejam trabalhar na educação – professores e pedagogos – trazem, no meio de suas frases sobre a “educação de Jesus”, noções construtivistas e/ou pragmáticas, que brotam de uma antropologia radicalmente contrária ao ensino do mesmo Jesus.
    Nossos cientistas sociais e historiadores estão afogados no marxismo, observando a história não como o desenrolar da Providência, mas como o resultado da luta de classes.
    Nossos biólogos são “cristãos darwinistas”.
    Não bastasse o dualismo no povo evangélico, os que tentam rompê-lo estão condenados pela estrutura utilizada para sua reflexão, que nega em cada instância o conteúdo religioso proclamado por eles.
    Também por isso estamos indefesos diante da maré gayzista e marxista. Nós usamos as categorias de pensamento propostas por eles, então acabamos pensando que a fala deles faz muito mais sentido. Desconhececemos a matriz Criação-Queda-Redenção.

4 A falta de uma abordagem estratégica e consistente das questões públicas
    Digamos que um cristão heróico conseguiu fugir da primeira barreira e compreende a Bíblia adequadamente; livrou-se da segunda e não trabalha a partir de dualismos; venceu a terceira e desenvolve uma forma de pensar legitimamente cristã; ainda assim ele encontra um quarto problema, que pode se manifestar de duas formas.

A bancada evangélica: fundamentação bíblica?

    A primeira delas é patente na raridade de cristãos auto-conscientes da Bíblia, da integralidade da realidade, e da estrutura cristã para o pensar. Sendo poucos, e espalhados, não se reúnem para ações conjuntas e significativas, e ficam como vozes soltas no espaço cibernético.
    A segunda forma se manifesta quando tais cristãos se encontram, organizam núcleos para reflexão e divulgação dessa “forma cristã auto-consciente de ser”, mas, sem nenhum senso estratégico, começam a atirar para todos os lados, e não tratam nenhuma questão consistentemente.
    Uma boa estratégia envolverá planos adequados de curto, médio, e longo prazo. Envolverá discussões e reflexão, formação de novas gerações nesta perspectiva, e a identificação de pontos centrais que precisam ser abordados estrategicamente, para que os demais – secundários – sejam tratados em seu devido tempo, ou venham na esteira dos principais.
    No direito, por exemplo, não adianta ficar discutindo se os homossexuais serão felizes ou não no casamento, mas indicar para a esfera do Estado como submetida à autoridade de Deus, e paralela (nem acima, nem abaixo), da esfera da família. Nesta perspectiva, não cabe ao Estado interferir na esfera da família, cuja estrutura foi dada soberanamente por Deus. (Vale a pena pensar mais sobre isso posteriormente)

5 Ataques internos
    O último problema gerador da obtusidade cristã no espaço público são as disputas internas que pretendem derrubar o edifício evangélico. Aqui eu penso, também, em dois caminhos.

PL122: nós fechamos a boca
e colocamos o zíper, eles só estão puxando

    Por um lado existem os cristãos nominais (falsos cristãos) e os cristãos inconsistentes que trabalham em projetos contrários ao cristianismo bíblico. Penso, por exemplo, nas declarações recentes de Ricardo Gondim, na abertura ao pós-modernismo proposta pela Igreja emergente, e no inclusivismo de gente como Ed René Kivitz. Caminhando lado a lado com o segmento cristão, e provavelmente bem intencionados, tais cristãos estão, continuamente, lançando bombas sobre o cristianismo bíblico, operando em prol da relativização e enfraquecimento da consistência de um pensamento rigorosamente centrado na Palavra de Deus. Tais ataques dividem a igreja, confundem as ovelhas, e contribuem para a irrelevância cristã.
    Por outro lado, existem aqueles que caminham juntos e possuem uma mesma confissão, mas, em vez de abordarem questões comuns a partir dos mesmos pressupostos, preferem digladiar-se mutuamente. Penso aqui em discussões que dividem as Assembléias de Deus, por exemplo, e na prática dos chamados “neopuritanos”, que, em vez de contribuírem para uma reflexão reformada da realidade, preferem discutir se Mark Driscoll é reformado ou não.

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O texto ficou maior do que eu esperava, e isso é outra tristeza, pois sei que muitos não chegarão até aqui por preguiça. Em parte eu não os condeno, pois a proposta de um blog, normalmente é mais dinâmica. Por outro lado, muitos deixarão de ler não por fugir de um padrão estipulado na blogosfera, mas simplesmente por não possuírem interesse no assunto, nem conseguirem caminhar com qualquer análise um pouco (e bem pouco) mais estendida de uma questão.
Contudo, embora a linguagem inteira do post seja pessimista e triste, e embora tenhamos nos colocado em uma situação lastimável, ainda tenho esperança. Creio que, identificando tais problemas e trabalhando consistentemente neles podemos melhorar a nossa condição, e creio, em um nível mais fundamental, que Deus continua guiando a Sua Igreja, de modo que ela nunca estará desamparada.
Deus nos ajude.
Soli Deo Gloria.

Posted in: a Caneta, o Jornal