Livros BJC: A morte de Ivan Ilitch (Lev Tolstói)

Posted on maio 22, 2012

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TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. 2. ed. São Paulo: Ed. 34, 2009.

Recomendado. Redenção não cristã, mas leitura interessante e insghts antroplógicos imperdíveis.

Esta é a primeira obra que leio de Tolstói. Talvez por isso me faltem maiores categorias de análise, e assim este post se torne mais uma descrição de impressões do que uma observação mais completa da obra. De todo modo, vamos lá.

A editora 34 parece ter um padrão de capas “clean” e boa diagramação. O tamanho da fonte é razoável, e isso ajuda em muito a leitura. Os textos posteriores também ajudam a lançar luz sobre a obra, e seu posicionamento estratégico permite que o leitor tenha suas impressões, e só depois seja direcionado por estudiosos, como Paulo Rónai.

A história de Ivan Ilitch me fala sobre um grau de autoconsciência diante da morte, e a banalidade de uma vida direcionada por falsos objetivos e deuses. O texto de Tolstói – e a tradução – são agradáveis, e a história se desenvolve de modo cativante.

Ivan Ilitch demonstra um caráter de ambições vazias, “atraído, como o inseto pela luz, pelas pessoas altamente colocadas na sociedade, assimilava as suas maneiras, a sua visão da vida, e estabelecia relações amistosas com elas” (p.18). É interessante notar como a cosmovisão da personagem vai sendo formada a partir destes contatos.

Tolstói adentra o recôndito do coração humano e demonstra haver algo além dos comportamentos humanos. Motivações e aspirações não declaradas, mas que direcionam o conjunto de práticas e estilo de vida adotado por alguém. Tolstói, intencionalmente ou não, revela deuses funcionais com maestria e criatividade. Isso fica demonstrado no amor que Ivan Ilitch tinha pela autoridade, mesmo que não a exercesse (p.21). Seu casamento também parece ter por background motivacional uma aspiração social.

Ilitch encontra lutas no relacionamento. E cria um mundo para si, fugindo do lar e envolvendo-se no serviço. Este movimento alimenta ainda mais sua ambição (p.25). Ilitch fugia da vida comum do lar, como o apóstolo Pedro disse (1.Pe.3.7), e assim vivia um casamento incompleto.

O coração de Ilitch continua revelado por Tolstói:

“Todo o interesse da existência concentrou-se para ele no mundo judiciário. E este interesse absorvia-o. A consciência de seu poderio, da possibilidade de aniquilar qualquer pessoa, a imponência, mesmo exterior, ao entrar no tribunal e nas entrevistas com os subalternos, o seu êxito diante dos superiores e dos que lhe eram subordinados e, sobretudo, a sua maestria em conduzir os casos criminais, que ele sentia, tudo isto alegrava-o e enchia-lhe a existência, a par das conversas com os amigos, os jantares e o uíste” (p.26-7).

As mágoas e dilemas de Ilitch são resolvidas na base de mais emprego, novos cargos e promoções. A redenção está no serviço e no conjunto de sensações envolvidos por ele. Uma dessas promoções promove a união com sua esposa, por exemplo.

Mas para um coração ambicioso, uma nova dose de conquista é apenas o intervalo para a próxima. Tolstói demonstra isso muito bem:

“Eles instalaram-se no apartamento novo, no qual, como sempre, depois que estavam bem enraizados, fazia falta apenas um quarto, e viveram com novos recursos, aos quais, como sempre, faltava apenas um pouco, uns quinhentos rublos, e a coisa ia muito bem” (p.32).

A certa altura uma doença em Ivan começa a se manifestar, e Tolstói abre um pacote de percepções da humanidade a partir deste evento. Ivan se torna mais amargo, sua esposa passa a experimentar intensa autocomiseração (pena de si mesma – uma forma de mascarar a idolatria do eu), o cinismo passa a fazer parte da vida, e as alterações entre ira e autopiedade trazem à tona as tensões de um coração idólatra.

Os conflitos de Ilicth se desdobram sobre seus relacionamentos, principalmente os familiares. Ele se sente envenenado, apodrecendo e morrendo, e o fato de ninguém ser honesto o suficiente para falar isso a ele o deixa ainda mais irado.

“[…] Ivan Ilitch fica sozinho, com a consciência de que sua vida está envenenada, que ela envenena a vida dos demais e que este veneno não se enfraquece, mas penetra cada vez mais todo o seu ser” (p. 43).

Pouco a pouco Ivan começa a tomar consciência da morte. Primeiro reagindo com ira e amargura, mas crescendo no modo de lidar com o fenômeno. O desespero inicial dá lugar à contemplação, quando fica a sós com “ela”, sem ter o que fazer – “somente olhá-la e gelar” (p. 52).

Finalmente Ivan Ilitch encontra o seu oposto, o jovem, simples e honesto Guerássim, e em sua companhia encontra alento. Talvez por demonstrar a Ilitch que a existência não é o que ele sempre pensou, talvez por ser a única pessoa honesta diante dele.

Crescendo na autoconsciência, Ivan faz a retrospectiva de sua vida e percebe o imenso vazio. Toda a alegria idealizada não estavá lá no passado – onde foi buscar. “Quanto mais longe da infância, quanto mais perto do presente, tanto mais insignificantes e duvidosas eram as alegrias” (p. 67). Uma vida desperdiçada.

Ivan parece ter um diálogo com a morte. Sua principal pergunta é pelo propósito dela. Para que sofrer isso? Ela responde: não há nenhuma finalidade. Deste modo, o vazio existencial de Ilitch é apenas ampliado. Nem mesmo o sofrimento tem sentido.

Sua percepção da ausência de sentido também ruiu seu projeto de vida. Tudo o que ambicionou e buscou era vazio, e Ivan agora sofre dores morais mais fortes que as físicas.

Ilitch entra no processo final – os seus três últimos dias de vida, marcados por sofrimento intenso. Mas existe uma proposta de morte redentiva. Num ato final, O egoísta e autorreferente Ivan Ilitch olha para fora de si – a sua família – e na proporção de seu desprendimento, é liberto das dores e angústia. Morre, sem sentir a aflição.

A idéia de redenção quando se volta para o outro é boa, quando o outro é o Outro adequado. Certamente deixar a autorreferência para se preocupar com outros seres humanos é algo louvável, mas se o ponto de referência não for o Senhor, a redenção é incompleta, ainda que a morte seja indolor.

De todo modo, o livro é fascinante em seu relato e no grau de descrição do coração humano. Entendo um pouco mais porque David Powlison coloca a literatura como forma de compreensão do homem acima das propostas psicológicas.

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