Cabeça de acadêmico #1

Posted on julho 26, 2012

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A Universidade Federal do Maranhão está lotada. Não de professores em aula – grande parte deles está em greve -, mas de expositores, pesquisadores, turistas, curiosos, e toda a multidão que veio participar do encontro da SBPC, que dessa vez é realizado em São Luís [provavelmente pela conveniência dos 400 anos da Ilha do amor].

Caminho para o ginásio onde os pôsteres serão apresentados, munido do meu banner. O sol castiga quem se aventura a andar sem proteção. Alguns minutos naquele sol valem por uma sessão de bronzeamento. E finalmente chego ao destino.

Com o pôster pronto, começam a aparecer os interessados. Apresento a perspectiva cristã sobre a dignididade do ser humano, e analiso brevemente algumas correntes dentro do protestantismo em sua ação social. Duas senhoras me assistem. Interessadas, em princípio, até que uma lança a pergunta:  “Pera um pouco… Muito bonito o seu trabalho, mas independente disso aí, como você acha que a igreja pode ajudar a combater a pobreza?”.

Eu começo a responder, seguindo o caminho adequado das idéias. Começo apresentando a doutrina da imagem e semelhança de Deus no homem, e logo sou interrompido: “Não, meu filho, independente desse negócio mais histórico e teórico, como a igreja pode combater a igreja?”

Eu tento responder mais uma vez, continuando de onde parei – da imagem de Deus no homem – e agora a outra senhora que me ouvia começa a gesticular fortemente e dizer: “esquece a religião! Esquece a religião! Esquece a religião!”. Ambas se unem em uma solidariedade tocante querem saber como a igreja pode ajudar, mas não querem me ouvir falar sobre o fundamento do Cristianismo. Uma delas afirma: “esse negócio filosófico todo eu já conheço. Eu estudei filosofia!”

Começo a ficar impaciente – meu pecado me atrapalha nessas horas. Mas tento conversar com elas para demonstrar a importância do caminho que sigo. Pergunto à primeira: “a senhora já estudou filosofia?” e recebo a resposta afirmativa. Pergunto à segunda o que estudou, e recebo um: “tudo! Fiz matemática, então estudei de tudo”. Muito bem, estou com uma conhecedora de filosofia e alguém que estudou sobre tudo. Elas devem saber do que vou falar. Então mando ver: “Se vocês estudaram filosofia, devem conhecer a necessidade de uma epistemologia definida para as articulações autoconscientes. Perceberão em Thomas Khun e Michael Polanyi a realidade de que existem paradigmas ou pressupostos norteando nossos pensamentos e práticas. Sendo assim, eu não posso simplesmente ‘esquecer a religião’, ou deixar ‘essas coisas de lado’ para responder a vocês sobre a ação da igreja”.

Segui respondendo, até demonstrar que o desdobramento da compreensão do valor humano a partir da imagem de Deus no homem, implicaria práticas de valorização do ser humano, traduzidas em ministérios de misericórdia, fomento à educação, fortalecimento das famílias, dentre outras coisas.

Tentaram, então, afirmar que a base está na educação. Eu retruquei que não – a base é a imago Dei. E no meio desta conversa, uma pediu pra sair, e a outra a acompanhou.

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O que vai na cabeça do acadêmico? Uma mentalidade fragmentada, que defende a idéia de uma razão autônoma – sem Deus, sem religião, sem pressupostos assumidos.

Mais do que isso, ao tentarem estabelecer a base na educação, estavam dizendo que a minha base não era suficiente, e se achavam na posição de juízas do fundamento do combate à pobreza. A decisão delas deveria ser acatada.

O que vai na cabeça do acadêmico? Um conjunto de idéias não analisadas, e como resultado uma abordagem cada vez mais ingênua e menos autoconsciente.

O que vai na cabeça desse povo? Um desejo de opinar sobre todas as coisas, e a rendição servil à deusa ciência.

Posted in: a Caneta