A arte de deixar

Posted on setembro 28, 2012

0


A arte de cuidar é a arte de deixar. Contraditório? Pode parecer, mas no sentido que pretendo tratar aqui, não. Sou jovem e tenho pouco tempo de ministério, por isso os casos e histórias pra contar são limitados, talvez muito menos do que os de grande parte dos leitores deste texto. Mas, mesmo com poucos casos, já é possível sentir a dificuldade no cuidado com as pessoas – como “deixar” pode ser parte do “cuidar”?

A compaixão precisa fazer parte da vida cristã. Demonstrar amor e compreensão diante das lutas humanas, saber ouvir e tentar perceber o ponto de vista de quem fala é saudável em muitos sentidos. E como desdobramento desta compaixão, ações concretas de amor, cuidado, aconselhamento e pastoreio serão realizadas.

Todo tipo de problemas se aproximará de quantos estejam dispostos amar segundo Jesus. Pessoas tomadas por Ira, desejo de vingança, depressão e tristeza, autocomiseração, medo e insegurança, inveja e mais outras milhares de cores da paleta de emoções e comportamentos humanos. Cada pessoa e história exigirá um ouvinte atento e cuidadoso, que possa responder conforme a sabedoria bíblica – afinal de contas, de livros de auto-ajuda as pessoas estão cheias. O cristão pode oferecer aquilo que ninguém mais pode: a graça de um Redentor que conhece e trata perfeitamente o coração humano.

Caminhar juntos é importante. Mas quando é a hora de deixar?

O exercício da compaixão e das ações concretas de amor se transformará em um discipulado: a contínua troca de idéias, tarefas e exercícios a serem realizados, e novas orientações. Mas logo o conselheiro – ou ouvinte, ou amigo, se você preferir – se dará conta de que o seu desejo de ver a pessoa restaurada encontra limitações, principalmente de tempo e espaço. Mesmo que o conselheiro levasse o aconselhado para morar em sua casa, ainda haveria limitações, pois nem sempre poderão estar juntos.
Tal limitação pode ser agoniante. Muitas vezes gostamos de estar perto, acompanhar, ouvir, perceber, orientar, etc. Mas estas restrições são parte do processo de tratamento de Deus para o aconselhado e para o conselheiro. Como?

A necessidade do “deixar” é dada por Deus para trabalhar vidas auto-suficientes. Por causa de nosso coração pecaminoso, seremos tentados a nos perceber como “os redentores” na vida daqueles a quem acompanhamos. Por acharmos que nós somos a redenção, queremos sempre estar por perto, sempre nos certificando de que está tudo bem. Para isso Deus envia o “deixar”. É uma declaração aberta do Senhor, afirmando: “Você não é o Espírito Santo”. Contra os nossos impulsos auto-referentes, Deus nos direciona para a Teo-referência. Ele é quem trata. Somos seus instrumentos.

Deus não apenas trata o coração do conselheiro. O aconselhado também é ajustado. Por causa do pecado (novamente), a pessoa acompanhada pode desviar os olhos de Jesus e situar sua confiança na figura do conselheiro. É neste momento que os ajudadores deixam esta categoria e passam a ser “gurus”. Por vezes nem estão cientes desta mudança, mas seus aconselhados já os vêem de outro modo.

O Senhor trata as pessoas em crise, providenciando o “deixar” e o afastamento do conselheiro para que haja estímulo à responsabilidade pessoal e à iniciativa própria (você deve fazer escolhas e agir sabiamente, ninguém fará em seu lugar). Isto direcionará o coração do aconselhado para confiar em Deus ao invés do conselheiro.

Em tudo isto somos confrontados com a realidade de que o conselheiro e o aconselhado precisam deixar, e confortados com a realidade de que nunca seremos deixados por Deus (Hb.13.5).

Posted in: a Caneta