Interações com a entrevista e Rob Bell a Veja [1]

Posted on novembro 29, 2012

2


Muito já tem sido escrito sobre a entrevista de Rob Bell a Veja. Desde os mais interessantes e provocativos, como o comentário de meu amigo Roberto Vargas Jr: “quem é Rob Bell?”, às avaliações mais detalhadas como a  do Rev. Augustus Nicodemus Lopes, e a do Rev. Misael Nascimento.

Por que mais um texto sobre isso, então?

Primeiro porque entendo que, embora por um lado possa parecer chato e monotemático uma enxurrada de avaliações e reações à entrevista de Bell, por outro lado a relevância de uma revista com peso nacional exige muitas respostas de veículos com menor popularidade – como os diversos blogs – para ver se a reação pelo menos se aproxima da popularidade da entrevista.

Segundo, porque as respostas a controvérsias podem ajudar no esclarecimento de pontos e doutrinas para a igreja. Entendo que seja ruim trabalhar sempre como reação a algo, mas muitas vezes a reação pode  fomentar o esclarecimento e desenvolvimento de uma identidade positiva. [Vale mencionar aqui, que no caso específico, quem está reagindo é o Rob Bell, pois a doutrina do inferno acompanha o cristianismo clássico desde… a Bíblia].

Terceiro, porque entendo que existem aspectos ainda não mencionados.

Dito isto, à entrevista:

Bell é um tanto confuso sobre crer ou não na existência do inferno. Em um sentido, céu e inferno são realidades experimentadas aqui e agora, e que se estendem para a eternidade (embora assuma esta última parte como mera especulação). Ao mesmo tempo, é inclinado a crer que no fim haverá uma espécie de salvação universal (pelo menos torce para isso, é o que diz). Em um outro sentido, ainda, é possível que os homens, em sua liberdade, rejeitem a Deus, e esse estado de rejeição ou resistência pode ser o “inferno”. Finalmente, Hitler buscou infernos para si e para os outros, então deve tê-lo recebido.

Desta breve síntese das respostas surge a questão: O que, afinal, Bell acredita sobre o inferno? Existe ou não? Há salvação universal ou não?

É difícil discernir esta resposta. Talvez isso indique elementos que precisam ser considerados. O pensamento de Bell sobre o inferno é preocupante, mas não só isso. Existem outros elementos atrelados ao ponto que merecem consideração. Responderei, aqui, não apenas a Rob Bell, mas também a elementos relacionados.

1. A lógica pós-moderna

Muito da nossa dificuldade em identificar uma resposta precisa no entrevistado, está no fato de que ainda utilizamos uma forma de pensar bastante “preto no branco”. Especialmente entre os reformados, gostamos de confissões, declarações de fé e catecismos, que respondam clara e objetivamente as questões levantadas.

Mas Rob Bell parece não trabalhar nessas categorias. De fato, enquanto o raciocínio reformado típico parece ser linear, a lógica de pensadores e teólogos pós-modernos é um tanto espiral: existem pontos de convergência e aproximação, acompanhados de pontos de distanciamento e contradição.

Conquanto isso irrite alguém habituado a sistemas organizados, não é incômodo para os pós-modernos. Eles parecem estar menos preocupados com coerência e articulação sensata dos seus pontos, do que com a expressão imediata de suas percepções e sentimentos. Aliás, a linguagem sentimental é percebida em toda a entrevista de Bell.

Este ponto pode ser percebido na diferença entre a pregação reformada, e modelos pós-modernos de prédica. “Prédica?” – um pós-moderno rejeitaria isso. Nesta perspectiva o pastor mais dialoga do que fala autoritativamente. Enquanto a pregação da “velha escola” trabalha com a apresentação de conceitos e pontos, com exposição, ilustração e aplicação, a “nova escola” rejeita tal abordagem. Buscando uma separação rígida entre a “mente moderna” e a “mente pós-moderna”, preconizam que a pregação contemporânea deve evitar conceitos e doutrinas (elementos da modernidade), e enfatizar narrativas. Esta lógica não-linear das narrativas será mais interessante ao público contemporâneo.

É este raciocínio que Bell aplica à entrevista. Pelo que parece, isso se tornou sua forma de pensar.

Se cabe uma avaliação crítica aqui, precisamos considerar o ponto com mais cautela. Do lado dos reformados, vale a pena perceber que em busca apenas da “linearidade” do raciocínio, muitas vezes perdemos o campo da sensibilidade e da beleza – afastando-nos especialmente das artes. Tornamo-nos pessoas “secas”, porque criamos uma dicotomia entre objetividade e beleza. Ficamos com a objetividade.

Que tal estimularmos artistas cristãos que apresentem verdade sólida em narrativas e outras formas de comunicação? Que tal buscarmos verdadeira beleza em nossa pregação e nossos cultos? Que tal experimentarmos sensibilidade em nosso modo de apresentar a nossa fé?

Devemos ainda considerar que há pessoas hoje pensando desta maneira diferente. Especialmente os mais jovens são formados em uma geração ensinada a abandonar a rigidez do pensamento e dos absolutos. Entram em cena as lógicas não-lineares, expressas no sincretismo moral, religioso e em tantas misturas existenciais no dia a dia. Podemos simplesmente desconsiderar ou ficar irritados com isso? Como podemos pensar a comunicação das verdades a pessoas que usam categorias de pensamento diferentes das nossas?

Quanto aos “pós-modernos” ou afins, vários pontos merecem consideração:

Se por um lado, parece feia a busca de objetividade sem sensibilidade, por outro, apenas sensibilidade sem chegar a lugar algum é insensatez. Rob Bell ficará como um cachorro girando em torno do próprio rabo, sem definições, experimentando uma sensação após outra, e aparentemente satisfeito com isso, sem perceber que fomos criados para o conhecimento das verdades eternas. Em uma passagem reveladora, o próprio Bell afirma que convicção é importante. Mas para haver convicção, é necessário uma crença firme em um aspecto percebido. Convicção demanda definição. Nem que seja para se estar convicto de que se está convicto! Deus nos criou para isso: afirmou-nos em Quem crer, no que crer, e como viver. Buscar apenas “a beleza da experiência cristã” sem saber o que é o cristianismo abre a porta para vivermos no engano. E tudo o que não está de acordo com a Palavra de Deus é engano e mentira. A beleza não é um fim em si, e mesmo a sensibilidade aponta para a verdade. Estética sem ética é vazio. Por isso precisamos de um raciocínio que, se não é tão direto, pelo menos dá voltas para chegar em algum lugar.

Outro aspecto importante aqui é que, possivelmente, os pós-modernos ficam tão fechados em seu círculo, que avaliam toda a realidade a partir do seu movimento. O resultado são erros como: “todos pensam nesta lógica não-linear hoje”. Os cristãos que abraçam tais abordagens em seus ministérios esquecem que ainda existe muita gente – se não a maioria das pessoas – pensando em termos antitéticos. Muitos, diante da incoerência ou da dúvida, perguntam: “mas quem está falando a verdade?”, ou: “mas o que é o certo?”. Nivelar todos pelos pós-modernos é um erro trágico.

Finalmente, essa divisão entre “moderno” e “pós-moderno” muitas vezes obscurece a compreensão de elementos importantes. Por exemplo, os “pós” afirmam que essa preocupação com doutrina e certezas é bastante moderna. Hum… será mesmo? Vejamos o Novo Testamento, por exemplo, e a preocupação dos apóstolos em que a sã doutrina fosse crida e aplicada corretamente. Vejamos a preocupação de Paulo em que o Evangelho fosse corretamente apreendido (Cf. Gálatas 1). Toda essa preocupação com doutrina, e, em certa medida, certeza, está apresentada muito antes do período moderno. Na demonização da modernidade, os pós-modernos estão perdendo a riqueza deste tempo, e de outros.

Anúncios
Posted in: o Jornal