Interações com a entrevista de Rob Bell a Veja [2]

Posted on novembro 30, 2012

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O Rev. Sandro Baggio postou suas percepções sobre Rob Bell, indicando também outros textos que eu não conhecia, disponíveis lá. Voltemos às interações.

2. O jogo de palavras e o misticismo semântico

Rob Bell, ao longo de toda a entrevista, brinca com os sentidos das palavras “clássicas”, substituindo o significado histórico por um novo ao seu gosto. É o caso de céu e inferno. Para Bell, “céu e inferno são dimensões da nossa existência aqui e agora”.

Na avaliação do Dr. Augustus Nicodemus Lopes, este é um aspecto interessante, e verdadeiro, da descrição de Bell. Tanto a experiência do céu quanto a do inferno têm início na presente era, sentida em doses relativamente pequenas de graça e juízo, até que se cumpram de modo pleno na eternidade. Acho tal proposta bastante pertinente, mas temo que não era esse o sentido proposto por Rob.

Aqui é interessante notar algo que direciona este jogo de palavras: Bell reinterpreta a tradição, diminuindo o peso da transcendência, e substituindo-a por elementos de imanência. Isto fica claro quando fala, mais à frente, de milagres. Eis uma citação literal:

https://i0.wp.com/amecristo.com/wp-content/uploads/2011/06/ARTICLE_RobBell.jpgO senhor acredita em milagres?
Acredito em milagres, mas quando falamos em milagres eu penso no nascimento de uma criança, numa partícula subatômica, um quark, que desaparece em um ponto e reaparece noutro sem percorrer a distância entre os dois pontos […]. É incrível que uma pessoa se cure de câncer e outra não, mas acho que devemos falar de milagre com outra abordagem. É no milagre do universo que acredito.

Eis o ponto: céu e inferno não devem ser pensados como realidades transcendentes, mas como aspectos do dia a dia, assim como os milagres não devem ser considerados elementos “sobrenaturais” num sentido místico. O problema aqui repousa no fato de que a Bíblia descreve milagres exatamente como aspectos de rompimento com a ordem natural das coisas. Os nascimentos miraculosos da Escritura são os de filhos de mães estéreis e o do filho de uma virgem. Todos os demais são da ordem natural. Isso não significa dizer que sejam menos impressionantes – apenas não fazem parte do que a Bíblia considera “milagre”.

Aqui pode ser útil a distinção proposta por Michael Horton entre providência e milagre:

Quando Deus abasteceu os filhos de Israel no meio do deserto enviando-lhes torrentes de pão e codornizes, foi uma provisão milagrosa. Quando ele proveu a Israel após a nação ter chegado na terra, enviando chuva e generosas colheitas, ele não estava menos envolvido na vida de seu povo, mas foi um envolvimento mais providencial do que milagroso.
Se deixarmos de notar essa distinção entre a providência e o milagre, acabaremos, ou deixando de ver a Deus como estando intimamente envolvido com nossa vida, ou tentando transformar tudo em milagre. (Horton, A face de Deus, p.226)

Quando tudo é milagre, nada é milagre. Perceber todas as coisas nesta perspectiva diminui a nossa capacidade de discernir a verdadeira diferença que a Escritura confere aos eventos miraculosos. Vale ainda mencionar que os milagres bíblicos funcionavam como instrumento para a legitimação do ministério de Jesus e dos apostólos. Mas se tudo é milagre, como isso poderia legitimar qualquer coisa?

Ao reinterpretar o sentido de milagre, Rob Bell rouba-lhe a transcendência e profundidade, deixando-nos com um sentido fraco e incompleto. O mesmo acontece com os sentidos de céu e inferno. Ambos são esvaziados da plenitude de significado, e percebidos em inevitável superficialidade. Se céu e inferno são o que experimentamos agora, por que nos precuparmos com “o juízo vindouro”? Ou que esperança temos para uma era plena no porvir? O medo vai embora – como acredito que Bell deseja -, mas a esperança também.

Entendo que parte do que Bell propõe é motivada pelo desejo de compreender este mundo de modo mais sensível – atentar para a beleza e significado das coisas comuns e simples. Alguns chamariam isso de uma “visão sacramental” da realidade. Penso que esta preocupação é bastante nobre, mas entendo que o caminho escolhido por Bell resulta no oposto disso. Precisamos de uma visão que reconheça a ação de Deus em tudo, mas que saiba diferenciar dádiva de milagre. A plenitude da beleza só pode ser percebida nas coisas simples à luz da eternidade para a qual apontam.

Uma transcendência roubada nos coloca em um universo opaco e cinza, sem significado. Pouco a pouco, não apenas as verdades sobre céu, inferno e milagres são reinterpretadas, mas outros elementos, como a própria natureza de Deus, a condição humana, e a realidade são despidos e esvaziados. O que nos restará, no fim, é o nada. Olharemos para uma flor, e será apenas uma flor. Talvez chamemos de “o milagre da flor”, mas que não aponta para coisa alguma. Foi-se o significado.

Os resultados desta aproximação são trágicos. Não afirmo que Bell o faça de propósito, mas indico que o fim deste caminho é conhecido. Uma religião imanente é a religião do homem, auto-referente e limitada.

Neste ponto a descrição de Francis Schaeffer é importante. Ele descreve o fenômeno do “misticismo semântico”:

[…] na nova teologia, é feito o uso de determinadas palavras religiosas que possuem uma conotação de personalidade e significado para aqueles que as ouvem. Uma comunicação real não é estabelecida de verdade, mas uma ilusão de comunicação é dada através do emprego de palavras ricas em conotação.

Adiante, o mesmo autor afirma:

Cada palavra tem duas partes. Há a definição do dicionário, e há a conotação. Palavras podem ser sinônimas pela definição, mas ter conotações completamente diferentes. Assim, percebemos que quando um símbolo como cruz é usado, seja na escrita ou na pintura, uma determinada conotação surge na mente das pessoas que cresceram em uma cultura cristã, mesmo que elas tenham rejeitado o Cristianismo (é claro que o uso de palavras desta maneira não se aplica apenas aos símbolos do Cristianismo, mas também aos de outras religiões). Então, quando a nova teologia usa estas palavras, sem uma definição, é dada uma ilusão de significado que é útil para fazer surgir motivações profundas.
É algo além de emoção. Uma ilusão de comunicação e conteúdo é dada de forma que, quando uma palavra é usada deste modo deliberadamente indefinido, o ouvinte “pensa” que sabe o que ela significa. (Schaeffer, O Deus que intervém, p. 92-3)

Conforme a descrição de Schaeffer, a nova teologia – à época expressa por teólogos como Karl Barth e Paul Tillich – usa os símbolos clássicos, mas com sentidos completamente diferentes, provocando confusão nos leitores e ouvintes, e enganando um grande grupo de pessoas.

Este misticismo semântico é a apropriação de palavras e símbolos tradicionais, reinterpretando-os com signifcado distinto.

O mesmo acontece com Bell e outros herdeiros pós-modernos do liberalismo e neo-ortodoxia. De algum modo mantém os termos da comunicação entre cristãos, mas com sentido diverso. É por isso que pessoas podem se impressionar e achar interessante como Rob Bell equilibra um estilo intelectual e descolado, mas ainda fala de céu, aparentemente de inferno, de milagres, … e provavelmente da maioria dos termos comuns do cristianismo. Com ele, outros nomes – inclusive no Brasil – falarão do amor de Deus, da igreja, da fé, e outros temas, mas atribuindo a esses termos significados completamente diferentes daquilo que a igreja crê historicamente.

É importante estar atento para este jogo de palavras e as expressões contemporâneas do misticismo semântico, que se manifestarão retirando a transcendência dos elementos bíblicos, ou direcionando a compreensão das verdades cristãs para sentidos muito distantes do que a Bíblia ensina.

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Posted in: o Jornal