Interações com a entrevista de Rob Bell a Veja [4]

Posted on dezembro 12, 2012

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4. Um anseio por integração

Rob Bell questiona uma percepção fragmentada, que caracteriza muitos cristãos. Em suas palavras:

[…] O movimento de Jesus se perdeu em algumas categorias-chave. Para muitas pessoas, a palavra salvação significa que Jesus virá nos salvar, que Jesus vai nos tirar daqui quando morrermos. Ou seja: é sempre sobre como ir para outro lugar em outro tempo. A palavra salvação precisa ser entendida num contexto holístico. A razão de tantos ocidentais fazerem ioga está no fato de que ioga quer dizer integração. Somos seres integrados. Acho que estamos na linha de frente de algo massivo, que vai mudar tudo.

Para o entrevistado, sempre olhar para outro lugar e tempo reflete e produz uma igreja desconectada da realidade. Penso que ele está correto.

Pensar as realidades espirituais como relativas apenas a outra “dimensão” é, em muitos aspectos, torná-las irrelevantes para a vida atual das pessoas. Se ser salvo significa apenas ir a outro lugar e tempo, então as manifestações da salvação no meu ambiente e tempo atual não precisam ser consideradas e evidenciadas.

Bell está correto em combater a dicotomia que toma conta de grande parcela das comunidades cristãs. De fato, somos seres integrados, como afirma. Mas qual a sua proposta para solucionarmos o problema?

Eliminar a fragmentação e buscar a integração, para Rob, é eliminar a transcendência e a percepção do além, para voltar os olhos completamente ao aqui e agora. Isto fica claro pela aparente eliminação – ou pelo menos reinterpretação – dos conceitos de céu, inferno, milagres e salvação.

Na prática, o que Bell está fazendo é simplesmente colocar o sistema de cabeça para baixo, aplicando uma fragmentação às avessas. Se no primeiro modelo dicotômico a transcendência é enfatizada, no modelo proposto pelo entrevistado, é a imanência que encabeça a divisão.

Embora deseje integração, Bell caminha para uma divisão tão nociva quanto a que critica. Desconsiderar a eternidade, as realidades de céu e inferno, milagres, e a dimensão transcendente da salvação humana, é negar parte constitutiva da realidade, e ficar apenas com sombras e vultos do todo.

Uma ótima resposta aos anseios de Bell está na tradição reformada, especialmente de origem holandesa. Abraham Kuyper se destaca aqui. Em suas famosas Stone Lectures, publicadas em português sob o título “Calvinismo”, destaca a integração deste sistema ao pensar sobre o relacionamento com Deus, com o homem e com o mundo.

O desejo de Kuyper é demonstrar fortemente como a tradição calvinista envolve toda a vida humana. Por isso começa com Deus:

[…] a primeira reivindicação exige que um sistema  de vida como esse encontre seu ponto de partida em uma interpretação especial de nossa relação com Deus. Isto não é secundário, mas imperativo. Se uma ação como essa está para colocar sua marca sobre toda nossa vida, ela deve partir daquele ponto em nossa consciência no qual nossa vida ainda não está dividida e encontra-se compreendida em sua unidade, – não nas vinhas que se espalham, mas na raiz da qual as vinhas nascem. (Kuyper, Calvinismo, p.28 – grifo meu)

Para Kuyper, “como nos posicionamos para com Deus é a primeira, e como nos posicionamos para com o homem é a segunda questão principal que decide a tendência e a construção de nossa vida” (Kuyper, Calvinismo, p.34).

No quesito da relação com o mundo, para Kuyper, é a tradição calvinista quem melhor promove integração:

Surgindo num estado social dualista, o Calvinismo tem realizado mudança completa no mundo dos pensamentos e concepções. Nisto também, colocando-se perante a face de Deus, ele tem honrado não apenas o homem por causa de sua semelhança à imagem divina, mas também o mundo como uma criação divina. Ao mesmo tempo o Calvinismo tem dado proeminência ao grande princípio de que há uma graça particular que opera a salvação, e também uma graça comum pela qual Deus, mantendo a vida do mundo, suaviza a maldição que repousa sobre ele, suspende seu processo de corrupção, e assim permite o desenvolvimento de nossa vida sem obstáculos, na qual glorifica-se a Deus como Criador. (Kuyper, Calvinismo, p.38-9)

Kuyper, portanto, apresenta a tradição reformada como um sistema de vida, que promove integração, articulando o homem em suas relações essenciais, conduzido pela realidade de Deus. Kuyper preferia o termo “calvinismo” a “reformado” em sua descrição, por entender que este segundo está mais relacionado ao campo específico eclesiástico e teológico, enquanto o primeiro é mais abrangente.

Para Nilson Moutinho dos Santos, no pensamento kuyperiano “o cristianismo das Escrituras não se preocupa apenas com a salvação da alma do indivíduo, mas se coloca como um sistema de vida que nada deixa fora do domínio de Jesus Cristo” (Santos, Abraham Kuyper: um modelo de transformação integral, In: Cosmovisão Cristã e transformação, p. 88).

Desenvolvendo o que ficou conhecido como neocalvinismo e filosofia reformacional, estão as obras de Herman Dooyeweerd, que também pensa o homem integralmente e reivindica postura anti-reducionista na compreensão da realidade.

Para o público brasileiro, o pessoal do L’Abri Brasil tem apresentado bem a proposta de transformação integral. Ler obras como “comosvisão cristã e integração”, e “Fé cristã e cultura contemporânea” são boas pedidas para um resgate da vida integral diante de Deus.

Francis Schaeffer usa categorias apresentadas por Dooyeweerd. Especialmente no livro “a morte da razão”, a descrição do motivo-base religioso “natureza/graça” é discutida. Talvez seja esse o ponto percebido na crítica de Bell. Ao criar oposição e dicotomia entre estes dois campos, muito da igreja cristã enfatizou o reino da graça em detrimento da natureza. Bell parece caminhar no sentido oposto: a natureza é o campo da vida por excelência.

A proposta reformada nega esta dicotomia, e compreende a realidade de maneira integral. Isto produz um modo peculiar de lidar com Deus, as pessoas e o mundo, fugindo das fragmentações, e preservando a transcendência. O anseio de Bell só pode ser satisfeito em um retorno à ortodoxia bíblica.

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Posted in: a Caneta