Ação estratégica, ou: Porque você deve assinar o abaixo-assinado pela não cassação do registro do Malafaia

Posted on fevereiro 21, 2013

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Eu não gosto do Malafaia. Ele fala alto demais, é debochado em muitos de seus sermões, tem argumentos ridículos contra a predestinação, e, mais importante, defende uma teologia severamente defeituosa. Eu odeio o que ele tem pregado a respeito de dinheiro, e isto é uma descaracterização do evangelho.

No entanto, levando estes aspectos em conta, existe algo no pastor que precisa ser considerado.

Após a entrevista recente dada à Marília Gabriela, um grupo deu início à mobilização que busca cassar o registro de psicólogo do fundador da associação Vitória em Cristo. Criou-se no mesmo site, em seguida, uma petição contrária, pela não cassação do registro. Com o êxito desta segunda campanha a petição foi retirada do site, restando apenas a primeira. A associação Vitória em Cristo iniciou em seu site um abaixo-assinado pela não cassação, que já conta com mais de 150 mil assinaturas, e tem a meta de conseguir mais de 200 mil. [clique aqui e saiba mais da história]

Eu recomendo que você assine, e justifico.

Com todas as restrições que temos ao pastor, sua posição é estratégica. O que está em jogo, neste caso específico, é a sanção a qualquer cristão profissional de psicologia que manifeste sua religião junto ao seu título profissional. Já é por demais ridícula a postura de “neutralidade religiosa” requerida pelo conselho de psicologia – como se isso existisse! -, mas o caso concreto pode abrir portas para uma série dprofeta10-300x300e outras iniciativas contra psicólogos cristãos que se manifestam em tal condição.

Conseguir a maciça participação pode revelar a realidade de que grande parte povo brasileiro não concorda com tal postura tirana, e, se não servir para qualquer outra coisa, funciona para marcar uma posição.

Eu não acho que se possa mudar o mundo com abaixo-assinados, e restrinjo a minha participação neles. Mas alguns são realmente significativos, e em termos de ação cultural, este é um deles. Eu não tenho nenhum interesse em Malafaia como psicólogo, mas tenho todo interesse em que um psicólogo cristão possa se manifestar publicamente. O silêncio cristão neste momento, pode implicar perdas culturais maiores. E isso nos leva a outras questões.

A fraqueza estratégica de reformados no Brasil

Ao falar do Malafaia, alguns cristãos reformados parecem compartilhar impressões semelhantes às minhas. Rejeitam a ênfase excessiva no dinheiro, e percebem pouco evangelho e muito moralismo em seu discurso. Fosse apenas isto, e não teríamos qualquer problema. Mas tais reformados parecem ir além, e rejeitar absolutamente qualquer iniciativa vinda do pastor. É aqui que o problema aparece.

Ao que parece, alguns reformados pensam que toda as discussões culturais serão resolvidas exclusivamente com o anúncio do evangelho. Penso que isto é uma cegueira teológica, e uma contradição com o próprio evangelho. Considerar a centralidade da ação redentiva em Jesus, é agir também de maneira redentiva, conforme o propósito de Jesus.

Na cruz encontramos a redenção do homem, e do cosmos. A partir disto, os cristãos precisam agir de maneira consistente, em busca de redenção do homem e da realidade como um todo. Isto implica, obviamente, a proclamação do evangelho – o anúncio de que só há transformação profunda e eterna mediante a fé na obra completa do Messias, mas também envolve uma ação direta no mundo. Anunciar o evangelho e se privar da participação nas variadas esferas da sociedade é  falar de Jesus com palavras e negar a Jesus na prática. Com a mensagem de transformação, os cristãos também são chamados a viver a partir do evangelho em seu ambiente profissional, e nas áreas estratégicas de formação cultural, como a política e as artes. Não é esta a doutrina reformada da vocação?

O Malafaia tem ocupado lugares que os reformados deixaram de lado. Ele parece mais corajoso do que nós, por não ter medo de “dar a cara a tapa”, e tem conseguido “vitórias em Cristo’ – não podia perder o trocadilho – como a pressão em torno do kit gay e o seu bloqueio. No caso do PLC 122/2006, o pastor é uma das poucas vozes a ter acesso ao congresso.

A lógica de muitos reformados parece ser: “Mas ao apoiarmos o Malafaia nisto, estamos dando espaço a ele! Não podemos ser vistos como aliados deste teólogo da prosperidade!”. Aqui cabe a distinção proposta por Francis Schaeffer em seu “A igreja no final do século 20”:

“Permita-me sugerir três implicações de uma verdadeira revolução, tendo em vista o ponto em que nos encontramos. Em primeiro lugar, os cristãos precisam entender que há diferença entre ser cobeligerante e ser aliado. Por vezes, nosso discurso pode parecer igual ao discurso de pessoas sem base cristã. Se há injustiça social, diga que há injustiça social. Se precisamos de ordem, precisamos de ordem. Nestes casos e pontos específicos, seremos cobeligerantes. Não devemos, porém, nos alinhar como se estivéssemos em algum campo firmado em alicerces não cristãos. Não somos aliados de nenhum campo deste tipo. A igreja do Senhor Jesus Cristo é completamente diferente; baseia-se nos absolutos que as Escrituras nos fornecem”  (p.37)

topo5Schaeffer nos ensina a fazer uma distinção básica. Podemos reivindicar causas junto a pessoas de compreensões diferentes, entendendo ser aquele um ponto de convergência, mas não deixando que nos consideremos aliados, por termos uma base distinta. Neste quesito, os reformados podem olhar para Malafaia como alguém que descaracteriza o evangelho em muitos aspectos, mas que se torna um cobeligerante na discussão cultural sobre a homossexualidade. Não precisam ter medo de “ser vistos como aliados”, mas podem manifestar sua discordância e base diferente, enquanto percebem aspectos positivos da ação do pastor.

A tragédia estratégica aqui é que, ao abdicar da participação ativa na cultura em nome do “evangelho”, tais reformados são levados pela agenda de quem está estudando, planejando, organizando-se politicamente e trabalhando em prol da causa homossexual. De alguma forma, esquecemos que, enquanto falamos de “cosmovisão cristã”, quem pratica a formação e compartilhamento de cosmovisões está tomando conta das universidades, dos partidos políticos, dos canais de televisão, dos jornais, e da mídia alternativa. Nossa estratégia consiste em criticar o mundo a partir do nosso facebook, enquanto lá fora existe ação real.

Falamos mal da novela que promove o homossexualismo, mas não criamos histórias de relacionamentos saudáveis sob Deus. Criticamos o deputado Jean Wyllys, mas não formamos políticos cristãos, conscientes e capacitados. Criticamos músicas que estimulam a promiscuidade, mas ouvimos as péssimas composições cristãs, cheias de clichês e linguagem pobre. Poderíamos investir em tantas coisas, mas aparentemente nossa energia é utilizada apenas em falar mal do Malafaia.

Não sou ingênuo a ponto de acreditar que trabalharemos de igual para igual. Primeiro porque começaremos com muito atraso, e segundo porque nossos recursos parecem ser menores. Mas podemos fazer algo significativo.

Se nos incomoda tanto a postura do pastor, tomemos isso como o desafio a uma ação cultural consistente, anunciando o evangelho, demonstrando o amor cristão, e reivindicando os espaços e a voz de quem é parte do Brasil e quer ser considerado assim, e criemos cultura, para a glória de Deus.

Assine o abaixo-assinado clicando aqui.

Posted in: a Caneta, o Jornal