À sua semelhança

Posted on maio 13, 2015

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In some way, every part of the organization bears your resemblance, sometimes in ways that are more obvious than others, but your stamp inevitably and undeniably becomes part of the organization’s DNA. (Darrin Patrick, For The City, p. 147)

De alguma forma, cada parte da organização traz a sua semelhança, às vezes de modos que são mais óbvios que outros, mas o seu selo inevitavelmente e inegavelmente se torna parte do DNA da organização.

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Poucos capítulos de livros são tão marcantes quanto o nove do For the city, escrito por Darrin Patrick e Matt Carter.

O livro, em si, é muito interessante, por nos estimular a uma perspectiva da igreja pouco comum, pelo menos em minha experiência pessoal. Os autores definem, logo de início, quatro posturas de igrejas quanto ao ambiente que as cerca — (1) a igreja na cidade que funciona como um tipo de reduto cristão com pouca interação e serviço ao “lado de fora”; (2) a igreja da cidade, totalmente envolvida na cultura, a ponto de perder seus distintivos cristãos em nome da contextualização; (3) a igreja contra a cidade, um grupo que considera tudo “mundano” e não vê a hora de partir desta terra; e (4) a igreja para a cidade, que busca, de maneira deliberada e inteligente, brilhar a luz de Cristo no contexto mais amplo onde está situada, por meio de proclamação e serviço. O livro se desenvolve nesse caminho. E então vem o capítulo nove.

Nesse ponto da obra, os autores, que são pastores e trabalham a sua experiência em plantar igrejas para as cidades de Austin, Texas, e Saint Louis, Missouri, decidem falar sobre os seus erros de liderança. E assim começam uma das descrições mais honestas e interessantes que alguém deveria ler para aprender sobre os erros que um líder comete.

É nesse ambiente que Darrin Patrick escreve a citação acima. Reconhece que algumas de suas falhas serão exibidas diante de si, pois a igreja, como reflexo de seu pastor, tratará de reproduzir seus modos. Pouco antes da citação, ele escreve: “como qualquer um que já tenha liderado um ministério ou equipe sabe, liderar outros significa que você, como o líder, reproduz a si mesmo”.

A idéia fundamental é simples: estando à frente da comunidade, o líder (pastor) funciona como um modelo a ser seguido. Obviamente, tal princípio vale para as virtudes, mas também para os vícios. E aqui começam os problemas.

É ótimo olhar para aqueles que Deus tem colocado diante de você, e notar que eles estão desenvolvendo virtudes, em certa medida, parecida com as suas. Talvez pensando mais profundamente sobre as Escrituras; talvez orando com mais estrutura; talvez se expressando melhor por meio das palavras… Mas é péssimo notar os seus erros reproduzidos em seus liderados: dificuldade em ouvir? Uso excessivo de termos técnicos? Arrogância? Impaciência?

Matt Carter ilustra bem o ponto em seu momento de confissões. Em uma das reuniões dos presbíteros de sua igreja, um deles compartilhou as dificuldades que tinha com o excesso de trabalho, dificuldade para dormir, dores de cabeça, dentre outros sintomas. Compartilhou tais lutas em meio a lágrimas, e deixou claro o quão difícil estava sendo passar por tudo aquilo. Enquanto ouvia o triste relato, as fichas foram caindo para o pastor. Ele era o responsável por aquilo. O que o irmão estava experimentando era o resultado de tentar ser igual ao seu líder, um workaholic impiedoso, que esperava nada menos do que isso de sua equipe.

Líderes precisam de honestidade quanto a suas falhas
Líderes precisam de honestidade quanto a suas falhas

Eu leio tais descrições e tremo. Fui chamado por Deus para ocupar um lugar de liderança. Quero ser um modelo para as pessoas a quem sirvo, mas não quero vê-las reproduzindo meus erros. De certa forma, é inevitável: posso observar um ou outro irmão e dizer: “ele está caindo nesse erro porque eu faço a mesma coisa”. Por vezes, é o espelho da igreja que providenciará auto-conhecimento: avaliar os problemas dos outros me tornará ciente dos meus problemas.

Como lidar com isso?

Não há fórmula mágica: continuaremos sendo observados como modelos — e é bom que seja assim — e as pessoas continuarão aprendendo de nós o que é bom e o que é ruim. Mas há medidas que podem tanto diminuir o impacto de nossos erros sobre a igreja, quanto acalmar o nosso coração no temor de errar.

O pastor Darrin pregou um sermão em sua igreja, chamado “confissões”. Dá pra se ter uma idéia do que aconteceu. Tratou de expor muitos de seus erros e pedir perdão à igreja por suas falhas como líder. Não é preciso fazer dessa forma, mas o princípio a ser observado neste gesto é o de cada líder agir com honestidade ao reconhecer suas falhas diante da igreja.

De alguma forma, somos colocados em pedestais. É um processo quase natural, talvez pela visibilidade do mestre. Mas é um problema quando o líder abraça tal lugar como seu “lar”. O pedestal não é nosso ambiente. E a maneira saudável de sairmos de lá é agindo com honestidade diante da igreja, para reconhecer nossas falhas, lutas e as maneiras como Deus está trabalhando em nós para nos santificar. Muitos de nós adoram citar exemplos virtuosos de nossa conduta, mas quantos estariam dispostos a citar os exemplos vergonhosos também?

Em uma igreja que estimula a cultura da honestidade, todos são vistos como seres em tratamento pelo Senhor, não importa de que lado estejam do púlpito. É responsabilidade dos pastores alimentar tal ambiente.

Outra “medida” útil nesse conflito interno é reconhecer quem é o pastor da igreja. Ficar excessivamente preocupado em que os irmãos não aprendam nossos erros pode nos transformar em moralistas hipócritas, em obcecados com nossas posturas públicas, e em “vigias” invasivos da comunidade. É inevitável que nossos erros sejam reproduzidos em alguma medida. E Deus usa isso para nos ensinar. Ele continuará a revelar que somos falhos e dependemos dEle para ter um coração ajustado. E, no fim, revelado está o Líder Perfeito diante de nós — o único digno de receber a mais profunda admiração e adoração.

Posted in: a Caneta